Alina Perlman Diário de Portugal - uma conversa de bar, uma mesa, uma investigação histórica il. Maurício Veneza DCL, 2003 48 pp. Férias! A família viaja para o exterior. Um menino e uma menina fazem sua primeira viagem internacional com os pais. O destino: Portugal. Até aí, uma história igual a muitas outras. Afinal, é no cotidiano das pessoas (e das suas próprias vidas) que os escritores buscam, em geral, inspiração para as suas histórias. Os dois irmãos são desafiados pelo pai a escreverem um diário. Assim, guiados pelos registros de Rui e Lucinha, somos convidados a conhecer aspectos da cultura, da arte, da Geografia e, sobretudo, da História do país que teve uma influência decisiva na formação da nação brasileira. As impressões sobre Lisboa e seus belos monumentos, o passeio a Sintra e a Estoril... Tudo isso chega aos leitores de forma simples e coloquial, nas páginas do diário. Em Castelo de Vide, uma revelação faz com que as crianças reflitam sobre um período da História difícil de ser abordado com a juventude. Aí, o gênero narrativo por ser tão conhecido de crianças e jovens, acostumados à linguagem dos diários e dos blogs, mostra-se instigante como forma de aproximação com o leitor. Dessa maneira, o texto de Alina Perlman e as ilustrações de Maurício Veneza trazem para a literatura infantil e juvenil informações e reflexões sobre um período cruel da humanidade, uma história de autoritarismo, intolerância, fanatismo e ganância. Na narrativa, um tema passa a ocupar lugar de destaque no livro: a Inquisição. É por meio do narrador-personagem Rui de Oliveira que os leitores têm acesso à história do chamado Santo Ofício da Inquisição, na península ibérica (em especial em Portugal), mas também no Brasil, onde aportaram muitos “cristãos-novos”, como eram denominados os judeus convertidos. A solução narrativa encontrada pela autora, dividindo o livro em dois cadernos, aponta para reflexões interessantes no que diz respeito à pesquisa sobre um determinado assunto (vale aqui ressaltar que o trabalho de ilustração acompanha com sensibilidade este movimento). Uma viagem pode se transformar em um trabalho de campo, e uma pesquisa bibliográfica em uma investigação histórica. E, além disso, essas duas práticas se mostram complementares. Em outras palavras: crianças tomam conhecimento de um tema, numa viagem, numa conversa, na leitura de uma notícia. Se o tema interessa, toca (como no caso de Rui e Lucinha), existe sempre a possibilidade de aprofundar os conhecimentos... Para isso, é importante ir às fontes: entrevistar pessoas, ler livros... A mediação da família, da escola e da sociedade também é fundamental. Assim como o desfecho do livro sugere, há muitos capítulos de intolerância na História, e há também desconhecimento, uma vez que muitos fatos são invisibilizados, daí os preconceitos étnico-raciais, de gênero, de classe, contra os índios e os negros e suas religiões tradicionais, contra ciganos, judeus, palestinos, cristãos... Temas que precisam ser abordados na literatura para crianças e jovens, na escola, nas conversas em família, no papo entre os jovens... A história das religiões deve estar presente nas escolas – porém não a doutrinação – sobretudo quando esta escamoteia a prepotência das tentativas de conversão. Sobre isso, Diário de Portugal nos faz pensar! |
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