Regina Drummond Destino: Transilvânia Scipione, 2006 248 pp. Transfigurações! É assim que a vida se abre em dimensões: de um simples corte no dedo, pode-se fazer aparecer um mar vermelho. E o vermelho, sendo sangue (ou mel?), é também o fluxo que conduz ao amadurecimento, líquido flutuante, “menstruante”, “cirurgiante”, diante do sinal evidente de que ninguém vive sem um mínimo de vampirismo! E esse ainda pode ser um outro nome, sofisticado, para a intuição, que dependendo do caso, pode ser festejada como nosso vampiro interior. A jovem Ingrid ganha de presente da madrinha uma viagem de férias. Vai a Alemanha ver, depois de alguns anos, sua benfeitora e praticar a língua alemã. Mas a madrinha oferece-lhe mais: uma viagem pela Romênia e a descoberta de que nem tudo está ao alcance dos olhos. E é nesta outra dimensão, que a jovem se vê frente a frente com Drácula e todos os seres que o cercam. Certamente, voltará modificada. O livro é construído como um guia de viagem. Há mapas, fotografia do castelo de Drácula, em Bran, encarte com imagens de cidades romenas, presos às capas, e nenhuma outra ilustração no corpo do livro! Há também um fundo vermelho, vazado, como se fosse uma boca em que se destacam dois caninos! Mas a viagem, além de inesperada, é cheia de emoção. E é também um mergulho na Idade Média e na cultura alemã. E é ainda um panorama histórico, da imigração alemã, da formação das cidades da Europa Oriental, das lutas de expansão e manutenção territorial, tudo isso mesclado ao bom e saudável exercício lúdico da ficção! Ah, mas é também uma história de amor, que redime Drácula das maldades que lhe atribuem, devolvendo-lhe a mortalidade. E é também uma inteligente possibilidade de diálogo com as milenares lendas dos vampiros e com o célebre e propalado Drácula de Bram Stoker. Há passagens memoráveis e de imensa beleza, como a da festa de Ano Novo no castelo de Drácula ou as visões da vida de Vlad Tepes, na Torre do Relógio de Sighisoara, em que o passado, rompe a barreira do tempo-espaço e surge assim do nada, como se os olhos, ao mirarem determinada paisagem, conseguissem radiografar o que ficou impresso ali! O texto é coloquial, mas com umas pinceladas poéticas como, por exemplo, referir-se à neve como “o frio vestido de branco” ou admitir que “a cidade grande não costuma se entregar ao primeiro que chega”, pois “é preciso conquistá-la”. Aliás, a alternância é um dos grandes pontos do livro. Alternância de tempos históricos, entre o urbano e o rural, entre o plano material e o espiritual, entre o terror e o amor, e em última análise, entre a realidade e a fantasia. O livro passeia por muitos temas, mas chama atenção, sobretudo, a força das personagens femininas, especialmente as duas Ingrids, cuja duplicação do nome contribui ainda mais para reforçar o encontro entre passado e futuro, num jogo de espelhos, de luz e sombra, de maldades e bondades, que podem ser vistos como o grande “jogo” do livro. No decorrer da trama, o universo adolescente misturado ao mágico permite à personagem principal uma visão cada vez mais profunda dos papéis sociais que experimenta e uma revisão de seus comportamentos e sentimentos, muito diferente dos temas padronizados que se repetem e se repetem nos livros juvenis! Regina Drummond, que tem vários livros publicados, vive na Alemanha, dirige oficinas de criação literária, acumula uma vasta experiência com literatura e promoção da leitura, e sabe o que faz! Ganhamos todos um adorável (e aterrorizante!) beijo na alma! |
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