Ururau, praga e pica-pau 
 Celso Sisto




Celso Sisto
Ururau, praga e
pica-pau


il. Graça Lima
Scipione, 2006
48 pp.


Quase sempre, quando se fala em lenda ou mito brasileiros, pensa-se em Saci, Negrinho do Pastoreio, Boitatá ou outras belas histórias muito conhecidas. Mas nosso folclore é infinitamente mais rico e diversificado. E, como afirma Celso Sisto na apresentação de Ururau, Praga e Pica-Pau, “o melhor mesmo é a possibilidade de ouvir a mesma história contada de outro jeito”. Foi isso que ele fez com a maestria de quem domina a arte da palavra.

Celso bebeu na tradição oral fluminense, cavoucou causos, remexeu o baú da memória, fuxicou o conhecimento público. Juntou tudo isso no caldeirão do talento, colocou uma boa pitada de imaginação e transformou em história.

A bela edição da Coleção Do Arco da Velha traz três contos. O primeiro, “Ururau”, conta a história de Amadeu, que desafiou o coronel Tibúrcio, pai de sua amada Afonsina, e que acabou sumindo na curva do rio, onde vive o Ururau. No conto seguinte, “Praga de Mãe”, o protagonista é Onofre: um sujeito que era mau, “mas era tão mau, que até os malfeitores que espreitam na noite escura preferiam não dar de cara com ele”. Onofre não respeitou nem a própria mãe e hoje “gira pelo mundo, às vezes como um bezerro coxo...”. O livro termina com a história de Marianinha, uma menina que só comia pés de galinha porque a roça tinha secado. Um dia ela encontrou um pica-pau, o pássaro da sorte, e desejou que ele mudasse sua vida.

Ao final de cada uma das histórias, Celso Sisto tem a generosidade de compartilhar com o leitor sua fonte de inspiração e revela detalhes curiosos como, por exemplo, que data de 1915 a trova bem humorada com que encerra “A Folha da Sorte” ou que o Ururau é um ser fantástico que vivia na imaginação do povo de Campos dos Goytacazes.

As ilustrações de Graça Lima, num tom quase cordelístico, acompanham o texto na medida certa: nem mais, nem menos. São imagens pontuais que não tiram do leitor a gostosa liberdade de criar a cena dentro da cabeça à medida que se envolve na história.

Contada com aquele jeito de quem senta na cadeira de balanço da varanda, coloca um pedaço de palha no canto da boca, encara a platéia e começa a desfiar... “Ali, na curva do rio, a água muda de cor. Quem quiser chegar mais perto talvez consiga ver...”. Quero dizer: deliciosamente.


Ciclo de leituras e resenhas promovido pela Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil.


Resenha
de Sandra Pina
AEI-LIJ/RJ

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