Georgina Martins Outros bichos il. Ivan Zigg Scipione, 2003 32 pp. O sonho e a imaginação talvez sejam mesmo a porta necessária para a ressignificação da vida. A realidade, com suas certezas científicas, não basta; além de, muitas vezes, representar a morte da fantasia. O que é demasiado ruim. Uma vida sem possibilidade de sonho é cinza, destituída de cores, de sustos, de surpresas, de graça. E é contra isso que a avó Onça-pintada, personagem do livro Outros bichos, luta. Estruturado de forma a estabelecer uma relação intertextual com as fábulas – formas simples em que animais antropomorfizados representam vícios e qualidades humanas – o livro de Georgina Martins, ilustrado pelo traço forte e colorido de Ivan Zigg, apresenta uma avó que adora contar histórias de seres sobrenaturais ao seu neto: o filhotinho de Onça. Ao narrar-lhe contos do Lobisomem, da Quimera, do Boitatá ou do Quibungo, vovó Onça abre-lhe uma perspectiva diferenciada de vida naquele mundo tão igual e repetitivo que a floresta apresenta, através de seus habitantes, limitados ao saber expresso por Dona Coruja. São vários os sustos, visto que o pequeno filhote vê a vida a partir da imaginação. Cada ruído diferente torna-se oportunidade de contato com os monstros das histórias que sua avó conta. São várias também as vezes que Dona Coruja — com todo o saber que lhe é peculiar — convence os animais a retornarem a seus afazeres, e de que seres fantásticos inexistem. A fantasia é sucessivamente “assassinada” pelo conhecimento que o sábio animal apresenta em seu livro sabe-tudo, cada vez que desmente a existência das criaturas assustadoras que o filhote de Onça-pintada insiste em convocar. Porém, a fábula moderna engendrada por Georgina Martins revela que, enquanto houver um sonhador, a fantasia estará salva. O final, neste sentido, não apresenta a moral fechada tradicional, presente em Esopo ou La Fontaine, mas, sim, revela-se emancipador ao tornar o filhote, após o “desaparecimento” da avó, não apenas protagonista, mas também narrador de tantas outras histórias de seres fantásticos que merecem ser contadas. E é com aquela expressão inicial, tão costumeira às histórias infantis: Era uma vez..., que Outros bichos encerra, abrindo espaço para que a imaginação do pequeno leitor siga construindo-se. Ato inaugural. E necessário. |
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