Edson Gabriel Garcia Cartas Marcadas: uma história de amor entre iguais il. Antonio Gil Neto Cortez, 2007 104 pp. “Fecharam-se todas as portas abstratas e necessárias. Correram cortinas de todas as hipóteses que eu poderia ver da rua. Não há na travessa achada o número da porta que me deram.” (Fernando Pessoa, Lisbon Revisited (1926), “Ficções do Interlúdio”, 1999). Estes versos do heterônimo Álvaro de Campos bem poderiam resumir o sentimento do protagonista deste texto de Edson Gabriel Garcia. Repentinamente jogado à necessidade de se definir sexualmente, Duda mergulha nas profundezas do preconceito, principalmente o próprio. A narrativa, entrecortada por cartas, bilhetes, pensamentos “bem do fundo do coração” dos personagens, e historietas paralelas, como contos entrelaçados, é praticamente uma prosa em versos. O texto é franco, sincero, aberto e sensível, tratando o homossexualismo da maneira como deve ser tratado, com respeito e profundidade. Garcia sabe que o assunto que aborda nada tem de simples, e o respeita tratando-o desta exata forma: sem simplicidade. Por isso, exige do leitor concentração, flexibilidade e abertura mental. Em troca, reflexões sobre a validade da tolerância e a promessa de uma vida mais fácil. Afinal, ser tolerante com o diferente é não ver empecilhos no diferente, nem promessas de ameaça: é ter tranqüilidade no espírito – por si só, uma facilidade no viver. |
| |||
|