O ouro do fantasma 
 Manuel Filho




Manuel Filho
O ouro do fantasma

il. Rogério Coelho
Ática, 2004
136 pp.


No mundo de hoje, a literatura juvenil precisa enfrentar toda uma gama de caminhos alternativos que o adolescente encontra por aí, para ler e criar literatura – os blogs, as mensagens de email e MSN, o grafite, as letras de música, etc. Muitas destas opções envolvem atividades grupais, sempre um atrativo a mais para o jovem. Não é tarefa fácil seduzir este leitor, mas os autores continuam tentando. E muitas vezes acertam no alvo.

É o caso do livro “O ouro do fantasma”, de Manuel Filho, lançado pela Ática na coleção Vaga-lume. Ora, para quem foi adolescente na década de 70, como eu, um livro da Vaga-lume traz de roldão uma série de pré-conhecimentos e expectativas. Me lembro perfeitamente de como eu costumava ficar examinando, na 4ª capa dos livros da coleção, as fotos dos livros lançados até então e contando quantos eu já tinha lido, e classificando quais eu tinha gostado mais, e imaginando qual seria o próximo. Cada um daqueles livros era, para mim, um convite para uma aventura ou um mistério, escrita com agilidade, dosando tensão, mistério, romance. Foi assim que eu devorei tantos livros de Marcos Rey, Lúcia Machado de Almeida, Luiz Puntel e outros mais...

Passei vários anos sem ler os livros da Vaga-lume, até receber o convite para fazer a resenha de “O ouro do fantasma”. E, para minha felicidade, o prazer da leitura foi o mesmo de antigamente. A história gira em torno de Lucas, um adolescente de 14 anos que viaja de férias para Tiradentes, cidade histórica no interior de Minas Gerais. Chegando lá, ele é chacoalhado por sensações estranhas, déjà-vus, visões, ruídos e pesadelos inexplicáveis. A explicação de tudo isto ele vai logo descobrir no encontro com o nefasto fantasma do título, o Comendador Benjamim António Ramalho, que morreu no século XVIII e, desde então, por motivos que o leitor vai descobrir, ficou aprisionado na igreja matriz da cidade. O arrogante Ramalho se expressa por mesóclises e termos arcaicos e arrepia o rapaz não apenas por ser um espírito, mas também, e principalmente, por suas cruéis memórias.

Contar mais do que isso estragaria as muitas surpresas e mistérios que Manuel escondeu ao longo trama. Basta dizer que Lucas depara não apenas com aquela assombração, mas com os diversos fantasmas de um passado que envolve escravidão, ganância, fé e luta pela liberdade. Na aventura, vai contar com a ajuda da bela e decidida Adriana e do divertido Joaquim, um rapaz ambicioso que conduz turistas pela cidade, em sua charrete.

A escolha de Tiradentes para ambientar a trama não é gratuita nem casual. O leitor não imagina que vai encontrar uma mera aventura adolescente formulaica, passada num lugar exótico, como muitas que existem por aí. A cidade de Tiradentes, aqui, é quase uma personagem da história. Ela está mais viva do que nunca, com suas casas que parecem todas feitas na mesma fôrma, o calçamento de pedras irregulares, o chafariz de água cristalina, a igreja matriz coberta de ouro e coroada por seu imponente órgão importado da Europa, e, emoldurando todo o cenário, a grandiosa Serra de São José. Tudo isso inserido na trama de forma orgânica e precisa.

Manuel também resolveu de forma simpática a questão do linguajar mineiro. O autor parece se divertir com a maneira como nós, mineiros, não somos muito rigorosos com nosso plural... E, sem cair no caipirês, percebe que a fala mineira não é um estereótipo, uma piada pronta. Os tratamentos, por exemplo, variam o tempo todo: você, ocê, cê, procê, docê...

O projeto gráfico mantém a curiosa opção – já tradicional na coleção Vaga-lume – de repetir um trecho da narrativa sob a ilustração, como uma espécie de legenda. Esta opção, que eu sempre estranhei nos livros da coleção, continua me parecendo desnecessária, como se a editora duvidasse que o leitor é capaz de estabelecer relações entre a imagem e a história. Mas, enfim, é um detalhe editorial que não interfere na qualidade do livro. Especialmente porque as ilustrações de Rogério Coelho são muito expressivas e têm a capacidade de reforçar a ambientação e o clima de tensão da história. São, certamente, mais elaboradas e autorais do que as ilustrações que eu me recordava dos livros da Vaga-Lume. Ponto para a nova leva de ilustradores da coleção.


Ciclo de leituras e resenhas promovido pela Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil.


Resenha
de Leo Cunha
AEI-LIJ/MG

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