Márcia Széliga Salesiana, 2007 32 pp. De Curitiba, de todos os lugares, ou, quem sabe, de lugar nenhum, chega-nos um trem assombroso. Ou melhor, um trilho de trem assombroso, já que o trem propriamente dito só surge lá pelo meio deste livro. Consagrada ilustradora, Márcia Széliga mostra em seu livro No Trilho do Trem sua habilidade não só com as imagens , mas também com as palavras. Mas o que têm assim de tão assombroso este trilho e este trem? Se suas páginas iniciais são carregadas de luz e flores, só faltando mesmo o cheirinho de primavera, à medida que o trilho avança, tudo muda, torna-se sombrio: chega a tarde, cai a noite. Seres fantásticos nos são apresentados, sinistras criaturas noturnas povoam os trilhos e os vagões do trem. Será um trem-fantasma? Quem o ler verá. São bruxas, fantasmas, vampiros, lobisomens. Entes do além que viajam sabe-se lá para onde. Aqui se poderia dizer, repetindo um lugar-comum bastante gasto, que as ilustrações são uma atração à parte. Pois não são. Não estão à parte, em separado. Estão integradas, fazem parte de um mesmo universo, é desnecessário e inadequado, como partir uma obra de arte ao meio, tentar separar desenhos e texto. As imagens flertam com o surrealismo, marca da artista. Uma coisa transforma-se em outra, em permanente transfiguração. O trilho, sempre em preto e branco (a cor aparece nas figuras e cenários), conduz o poema, saindo de uma página e entrando na seguinte, incluindo as capas e passando até mesmo pelos créditos e dedicatória. Só desaparece momentaneamente ao entrar no túnel no fim do livro, para reaparecer na quarta capa, que, por sua vez, reconduz à primeira, numa infinita leitura circular. Se colocadas as páginas lado a lado — e aí está o grande achado visual do livro — teremos uma única ilustração, um longo painel feito com lápis de cor, em que o fim remete novamente ao começo. Tudo permeado por aquele frio na barriga, aquele medinho gostoso de quem adora ouvir “causos” de assombração depois do jantar, ainda que saiba o quanto vai ser difícil dormir depois... |
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