E assim surgiu o Maracanã 
 Sandra Pina




Sandra Pina
E assim surgiu o Maracanã

il. Marcelo D’Salete
DCL, 2006
48 pp.


Devo confessar que, lá
no início dos tempos, não era
o que se possa chamar de uma fã de carteirinha do futebol. Apesar disso, sempre que chegava atrasada às sessões de cinema, adorava ouvir o tema musical do Canal 100, noticiário que divulgava eventos esportivos, antes dos filmes. A frase “que bonito é...” (primeiras palavras do tal tema musical) acompanhou-me vida afora. “Que bonito é...” — coisa que se revela, de fato, no dia em que se põem,
pela primeira vez, os pés no Maracanã. Independente da completa ignorante que era acerca de assuntos futebolísticos, arrebataram-me as dimensões do estádio, a extensão das ondulantes bandeiras das torcidas adversárias, os ensurdecedores foguetes e gritos de gol,
a incomparável vibração. Quem ainda não assistiu
a um clássico no Maracanã, fique sabendo que não pode se gabar de já ter experimentado de tudo na vida.

Um dos grandes méritos do
livro E assim surgiu o Maracanã, da autora Sandra Pina (numa dobradinha afinada com o ilustrador Marcelo D’Salete), é justamente este: inocular tal desejo e gosto no leitor. Não só: de bandeja, também nos brinda com reminiscências dos anos de ouro do esporte bretão, quando ainda fazia sentido a expressão futebol-arte. Na história, na qual cabem histórias que há muito pediam para serem contadas, os capítulos caminham no mesmo passo da construção do então monumental Estádio Municipal. Obra que, como toda carioca que se preze, recebeu, dos cidadãos do Distrito Federal que, em 1958, situava-se no Rio de Janeiro, o carinhoso apelido de Maracanã. Nos anos 60, passaria a ser chamada de Estádio Mário Filho, sem jamais, porém, perder o título de Maracanã.

Um achado a narração de forma cronológica, o que facilita acompanhar cada lance da história. Um achado ainda maior o fato de que a obra cresça e crie forma diante dos olhos encantados de Joaquim, um menino louco por bola. Cresce o estádio, cresce a Favela do Esqueleto, cheia de migrantes nordestinos, cresce o mercado de trabalho nas cercanias, que inclui o pai da personagem principal e seu patrício português, seu Manoel, dono de uma padaria que prospera, graças à obra. Interessante viés sócio-econômico acoplado ao sonho.

E qual o sonho de Joaquim? O mesmo de todo menino da época: assistir, no estádio erguido pelas mãos do pai, “uma partida de futebol, de verdade”. Sonho que leva três longos anos para ser concretizado. Finalmente, numa feliz coincidência de datas, o Brasil enfrenta o Uruguai e Joaquim completa 15 anos. Que melhor presente um pai poderia dar a seu filho do que levá-lo a assistir a “uma partida de futebol, de verdade”, justamente a final da Copa do Mundo de 50?

16 de julho de 1950: a data que tinha tudo para ser memorável, não só para o menino que realizava o antigo sonho como para toda a pátria de chuteiras, tornou-se, em questão de instantes, amargo pesadelo. E aqui cabe acrescentar um tento a mais no placar de Sandra, assinalando a marca indelével de quem domina seu ofício. Palavra, lendo a passagem que narra a derrota do Brasil para
o Uruguai, não pude deixar de me emocionar. Nem era nascida ainda, mas meu coração suspendeu as batidas,
igual ao dos 200 mil torcedores no estádio, como se recordasse o que jamais vivi. Que outro nome dar
ao que nos faz experimentar algo assim, senão talento?

Felizmente, em 1969, o homem em que se torna Joaquim — que ainda traz o menino dentro de si — goza de uma segunda chance de viver seu sonho, em plenitude. Desta vez, acompanhado do filho, Luís Alberto. No mesmo palco mítico do Maracanã, o pesadelo vira sonho nos pés do mais aclamado de nossos reis, Pelé. Aos 23 minutos do segundo tempo, uma das “feras do Saldanha”, técnico do selecionado verde-amarelo, marca o gol contra o Paraguai, classificando o Brasil para a Copa do Mundo de 1970. O resto é história.

As ilustrações de Marcelo D’Salete, além de tantas outras qualidades, têm o mérito de serem fidedignas ao registro da época, tanto nos figurinos quanto nos adereços e ambientes retratados. Ponto também para a menção da técnica usada, no texto autobiográfico. Fotos e dados curiosos sobre o Maracanã encerram a obra, imperdível para todo brasileiro que se orgulhe das cores de sua bandeira. Ou, pelo menos, das cores da camisa da seleção canarinha. Show de bola!
Aprender, reviver, se emocionar:
o que mais se pode esperar de um bom livro?


Ciclo de leituras e resenhas promovido pela Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil.


Resenha
de Flávia Savary
AEI-LIJ/RJ

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