Quem é você, afinal? 
 Jonas Ribeiro



Jonas Ribeiro
Quem é você, afinal?

il. Jota
LGE, 2005
56 pp.


As ilustrações são como registros do cotidiano de Jota, relojoeiro aposentado, avô do autor — objetos de sua oficina, relógios, muitos relógios, dando aos poemas um fundo que é o próprio Tempo, e vez por outra, quando surgem pássaros, escapando do movimento giratório para sugerir linhas traçadas no ar. E essa é também
a matéria-prima básica dos poemas de Jonas Ribeiro.

Ou a precisão cíclica da conjugação do verbo amar
(Simples versos de uma complexidade torturante), ou
o “eu vôo/tu voas/ele voa” (E só. E tudo isso. E muito mais) que de repente dá uma guinada, desvia-se e faz:
“Nós somos o vôo./ Vós voais com delícia. /
Eles são as asas”. O tempo e as asas, portanto:
“Você me ensina, pássaro... a perder a hora,/
o relógio e a razão...” (A hora do esquecimento).

Há pausas.
Pássaro pousado, relógio esquecido — são poemas
para serem lidos saltados, sem ordem. E rever ao acaso,
quando então quem sabe o leitor detenha o folhear das páginas e escute um sussurro: “Você pode não ouvir/
mas todo dia lhe direi bom dia. /.../ Sonhe comigo./
Acorde comigo./ Dia e noite./ Noite e dia.”...
(Sussurros para o sol, sussurros para a lua)?
Ou, ainda
nessa planada ao sabor do vento, abre-se uma página
e um beijo lhe atinge o rosto: “Jogo beijos para o alto.
Todos cairão em seu rosto. Pontaria certeira.” (Pontaria).

E há outras imagens voadoras:
“Vamos brincar de estourar/
as suas perguntas de sabão” (Indelicadeza);
quando poderiam ser essas perguntas:
“Será que pássaro tem avô?/ Será que os pássaros alugam/ os troncos de uma árvore?” (Perguntas). É que muita coisa
na vida, enquanto o tempo passa, estouram nossas
bolhas de sabão, sejam perguntas, sejam pedidos.

Quem é você, afinal? não é uma pergunta que ganhe resposta (“Será que pássaro precisa de alguma dessas respostas?” — Perguntas, outra vez). E pode até ser radicalmente poético lançar perguntas que ficarão no ar, que não terão respostas. Enquanto isso passa o tempo. Sem ter hora. Não há pergunta que o detenha, nem se preocupa com isso o vôo despojado dos pássaros; como parece ser é a impressão que quer deixar o conjunto destes riscos, destas confidências, compostas sem ardis, em linha livre e direta.


Ciclo de leituras e resenhas promovido pela Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil.


Resenha
de Luiz Antonio Aguiar
AEI-LIJ/RJ

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