A Ingrid veio ver o mar 
 Edna Bueno




Edna Bueno
A Ingrid veio ver o mar

il. Suppa
Global, 2004
16 pp.


Todo mundo deveria ter, naturalmente, uma atração pela água. Afinal, somos feitos de um grande volume dela! Afinal, enquanto estamos sendo gestados, passamos uma boa parte do tempo dentro de uma bolsa cheia d’água. Será que
é por isso que tomamos banho todos os dias? Será que
é por isso que todo mundo um dia quer ter visto o mar?

A história de Ingrid escoa exatamente
do desejo de tocar o mar com os pés e com os olhos!
Ela e a mãe vão de Minas para o Rio de Janeiro, e
se hospedam na casa da Ciça. No dia seguinte,
a família da Ciça leva mãe e filha à praia, mesmo o dia estando nublado e com ameaça de chuva... Mas,
assim que se aproximam do território das maravilhas,
o sol aparece, as crianças brincam com balde na areia,
correm das ondas, pulam pra lá e pra cá... Enfim, um passeio
coroado pela alegria e pelo sono recompensador,
no colo da mãe, dentro do carro, na volta pra casa.

Contada assim, a história pode parecer comum. Mas não é! Pois quem conta é um menino pequeno, ou melhor,
o irmão da Ciça. E contada por ele, a história vai ganhando
contornos poéticos, atirando água e bóias para
todos os lados, para refrescar nossa memória e nos salvar
de possíveis afogamentos — o maior deles talvez seja esquecer a nossa própria infância! O menino vai
salpicando sua narração com pequenas paradas, para contar coisas de sua vida, fatos, lembranças, ou tecer comentários sobre o mundo e, principalmente, definir algumas coisas
de fundamental importância para uma história que
flui e reflui como o mar: o longe e o perto; o mistério
da linha do horizonte; o olhar o mar como remédio pra tudo; e a própria definição de mar: “uma água que vinha correndo
molhar o pé da gente... virava onda e vinha correndo.”

No final das contas, ou quem sabe, no final do dia,
com a maré já nas alturas, fica aquele barulho de mar,
típico de quem encostou o ouvido numa concha para ouvir
o marulhar, dizendo incessantemente: não basta tocar o mar só com os pés. É preciso ter tocado o mar com o coração... para que ele fique marejando dentro de nós! É exatamente isso que Ingrid faz: na hora de ir embora, fica parada olhando por algum tempo o mar, para tê-lo bem perto, quando estiver em Minas! Ah, Minas Gerais... que guarda outros mares de paixões! Que diga Marília, que diga Dirceu!

Para estabelecer um diálogo com o texto de Edna Bueno,
a ilustradora Suppa usa, como fundo, as texturas de
papéis reciclados, e muitos azuis, amarelos e verdes, que
deixam no papel a ilusão de um dia claro, alegre e bonito.
Também é curioso o movimento dos cabelos dos personagens, que trazem para dentro das páginas, a brisa
do mar. E tem ainda os personagens adultos, como figuras esguias, para acentuar a diferença em relação às crianças e seus focos de visão. Tudo coroado pelo movimento ondulado dos desenhos do calçadão da praia de Copacabana...
que reprisa o mar para os banhistas e passantes
levarem-no, no derradeiro momento, também nos pés!

Ah! Uma anotação vinda com a última onda: é bom
que meninos e meninas vejam, desde cedo, o mundo
pelo olhar da poesia. Assim, quem sabe, as palavras possam fazer frente à violência que corre pelas ruas das cidades. E palavra bonita, palavra sentida com toda a força do sentimento, tem o poder de deixar a gente um pouco melhor: mais calmo, mais doce. Ou quem sabe, se invertêssemos
o dito que diz que “o sertão vai virar mar” e ficássemos torcendo para que a metrópole fosse invadida pelo mar,
não como uma onda devastadora ou como a réplica
de uma tsunâmi, mas como essa água poética salgada
que se espalha devagar, temperando tudo,
mesmo que vivêssemos em Minas Gerais.


Ciclo de leituras e resenhas promovido pela Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil.


Resenha
de Celso Sisto
AEI-LIJ/RS

Conheça o livro que
Edna Bueno leu
para o Trevo de Leituras



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