Palavras são pássaros 
 Ângela Leite de Souza




Ângela Leite de Souza
Palavras são pássaros

il. Pipida
Salesianas, 2006
32 pp.

Haicais e origamis, um livro feito de força e delicadeza. Poesia.
Um livro que, mais do que guardar mundos, abre mundos. Convida o leitor a passear pelas diferentes artes de doze artistas levando como bilhete de viagem um alçapão:
Palavras são pássaros/ apressados./ É bom ter/ alçapão
à mão.
Um alçapão nos olhos, ouvidos, em todos os sentidos:
a arte se faz do que se colhe no caminho. Do que se vê: meninos brincando, formigas carregando folhas, bandeirinhas, linha do horizonte, campos de trigo,
fatia de sol, mata queimada, cisnes que nadam/dançam.
Do que se ouve: vozes de canário, sabiás no varal, matitaperê. Do que pulsa: bruxas e fantasmas, crianças.
A arte se faz do que se tem às mãos: um mundo que era preto-e-branco e se faz poesia como a terra se faz casa nas mãos do joão-de-barro e a agulha do sonho borda poesia.

O artista, com suas mãos,
desencanta anjos da pedra-sabão, inventa canções bem lá
na beirinha do vento, enxerga o Carnaval na labuta das formigas, salpica de corvos um campo de trigo. O artista descobre de onde vem a clave de sol, chora com a rolinha a mata queimada, funda reinos encantados em ribeirões, se faz cartão postal, por que não também o leitor? Por que não?

Pássaros habitam cada página do livro apontando
para esse caminho: armarmo-nos também de alçapões e caminharmos por aí, e não só pelas páginas desse livro, enxergando poesia e sentidos. Palavras-pássaros falam
da arte, da Natureza, da simplicidade, juntam artista e obra desenhando mundos: o pio do matitaperê falará para sempre do seu maestro, daquele que lhe escutou. É assim
que, na última página, em uma referência a Cecília Meireles
e seu poema “Ou isto ou aquilo”, ganhamos
a possibilidade infinita da escolha em um buquê de flores.
Os pássaros já não habitam essa página,
deixam as flores. São muitas as possibilidades.

Origamis e haicais, em grande harmonia, saltam aos olhos do leitor. Os haicais sugerem imagens, os origamis presenteiam com imagens: possibilidades. Palavras no papel, imagens feitas de dobraduras de papel: força e delicadeza. Armar alçapões e colher sentidos como quem colhe flores, percorrer os caminhos da poesia. Os caminhos da arte, do belo.

Um glossário ao final do livro traz uma pequena biografia
dos doze artistas citados abrindo seus mundos para o leitor, aguçando a curiosidade de conhecer outros artistas e
outros mundos. Palavras são pássaros não é um livro
para se fechar ao final da leitura, é um livro que faz abrir,
que se abre: asas de um pássaro encantado.


Ciclo de leituras e resenhas promovido pela Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil.


Resenha
de Edna Bueno
AEI-LIJ/RJ

Conheça o livro que
Ângela Leite de Souza
leu no Trevo de Leituras



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