Sehaypóri: o livro sagrado do povo Saterê-Mawé 
 Yaguarê Yamã

Uma coleção de Mitos
Comentários de
Ninfa Parreiras



Yaguarê Yamã
Sehaypóri: o livro sagrado do povo Saterê-Mawé

il. Yaguarê Yamã
Peirópolis, 2007
160 pp.


Sehaypóri – O livro sagrado do povo Saterê-Mawé é uma obra do autor nativo Yaguarê Yamã, pertencente ao povo Maraguá-Mawé da região norte do Brasil. Uma belíssima reunião de lendas, fábulas, mitos e histórias que falam da origem das coisas. Sehaypóri, na língua Saterê, quer dizer coleção de mitos, que estão gravados no remo de madeira Puratig, símbolo da identidade cultural do povo Saterê-Mawé. Minúsculos grafismos gravados no remo contam as origens e histórias ancestrais deste povo, algumas delas centenárias. Os relatos foram pintados de branco e vermelho, cores extraídas do barro-branco taguatinga e das plantas urucum e jenipapo, típicas da região. É um remo que fica guardado em local reservado e sagrado. No remo, estão vivas as origens da humanidade, as forças da natureza, as crenças para aquele povo. Agora, transcritas em palavras, as imagens ficarão imortalizadas em relatos.

Considerado o registro da sabedoria para aqueles povos indígenas, o Sehaypóri tem uma importância semelhante à Bíblia dos cristãos e à Torá dos judeus. Nele, está a memória deste povo, suas crenças e o entendimento da vida humana. A obra vem dividida em três partes: Os mitos sagrados; As lendas e As fábulas. Em cada parte, há vários capítulos, alguns de caráter local e específico à cultura, principalmente nas lendas e fábulas (“A origem do guaraná”; “A aliança entre os Mawé”; “A origem do caju”); outros de caráter geral, mais presentes na parte dos mitos (“A origem da noite”; “A origem do fogo”). Mesmo ao falar de frutos e animais locais, os relatos apontam valores universais, como o trabalho, a solidão, o amor, a sobrevivência... Vão além das fronteiras da selva amazônica para provar a força das culturas primitivas.

O projeto gráfico e as ilustrações reproduzem a identidade do Puratig, com grafismos, o uso da cor vermelha. A capa em relevo reporta o leitor à textura artesanal. Os desenhos pictóricos trazem a reprodução de bichos, cenas da natureza e representações simbólicas. São imagens que colaboram para o contato intenso com uma cultura antes oral, agora escrita e impressa. Os sentimentos de quem lê, vê e observa certamente serão afetados desde a sensação de percorrer um rio, a estar presente em um ritual ou em uma luta de guerreiros.


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A obra tem o caráter de ser um testemunho, que ganhou vida, voz e dinamismo; vai além das fronteiras do local sagrado que guarda o Puratig e leva este repertório mítico para os brasileiros conhecerem mais dos povos nativos que residem em nossas florestas. Com isso, enriquece a produção de obras de autoria indígena destinadas à infância e à juventude. Nossas crianças, adolescentes e também adultos poderão ter contato com culturas e registros antes desconhecidos e com a singularidade de serem assinados por escritores e ilustradores nativos. Isso imprime um caráter novo às narrativas, antes recolhidas por antropólogos e outros estudiosos. Agora, com a palavra, o índio!

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