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Obras de
Caráter Informativo |
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Apresentação de Ninfa Parreiras
Nossa literatura brasileira para a infância e a juventude tem muitas de suas raízes na oralidade. Nas cantigas, nas lengalengas, nas fábulas, nas lendas, nos mitos... Não muito diferente da literatura proveniente da Europa Ocidental, bebeu na fonte dos contos populares. Lá, nos contos de fadas; aqui, nos contos folclóricos constituídos pelos diferentes povos que viveram e aportaram no nosso território com suas culturas. Assim, o folclore é uma de suas fontes, seja pelos personagens, seja pela linguagem popular das narrativas, seja pelos conteúdos de muitas histórias contadas, por exemplo, por Monteiro Lobato, que é considerado o patrono da Literatura Infantil brasileira.
Na década de noventa do último século, os indígenas brasileiros começaram a relatar, publicar e divulgar seus contos. E assinar os seus livros. Em 1995, Daniel Munduruku publica
Histórias de índio, pela Companhia das Letrinhas, um marco para a literatura infantil brasileira e para os autores indígenas: a transposição da oralidade para a publicação escrita.
A produção de autoria indígena é absolutamente nova, em processo de consolidação. Os autores estão vivos, criando e construindo o que podemos chamar de Literatura Indígena. Eles têm se reunido há alguns anos num seminário anual, em parceria com a Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil - FNLIJ, no Salão FNLIJ do Livro para Crianças e Jovens, no Rio de Janeiro, para discutir as suas obras, os espaços e as dificuldades encontradas pelos autores na publicação e divulgação de suas vivências e crenças. São narrativas escutadas e transmitidas de geração para geração, de avô para neto, de pai para filho...
Em 1980, foi publicado o primeiro livro brasileiro totalmente escrito e ilustrado por autores indígenas, da Livraria Cultura Editora, de São Paulo. A obra, apresentada pela antropóloga Berta G. Ribeiro, Antes o mundo não existia, é de autoria de Umúsin Panlõn Kumu e Tolamãn Kenhíri. Traz, em língua desâna e em português, a história da criação do mundo segundo a mitologia do povo desâna, do Alto do Rio Negro, na região Amazônica.
Lamentavelmente, muitas pessoas da nossa geração conheceram o indígena pelos livros didáticos, como um ser selvagem, preguiçoso, afeito à pesca e ao cultivo da mandioca e que se rebelou contra a escravatura. E o que mais?
Com os estudos de antropólogos e historiadores, tomamos contato com culturas diversas, com tipos físicos diferentes, com falas incomuns... Hoje bastante reduzidos, os povos indígenas brasileiros, alguns moradores de áreas urbanas, outros de aldeias rurais, encontraram um caminho para divulgar suas memórias. Há dezenas de escritores e alguns ilustradores nativos que têm publicado para o público infantil e juvenil.
A discussão sobre esta produção ainda carece de estudos e de pesquisas. Seria literatura? Ou obras de valor didático? Seriam recontos? Diante de tantos livros que têm sido editados, podemos identificar algumas linhas de criação. Há os livros de caráter informativo, que trazem curiosidades e esclarecimentos sobre o povo indígena. Há os recontos que trazem histórias de autoria desconhecida, que envolvem personagens do nosso folclore: o Saci Pererê, por exemplo. Há as recriações de histórias. E ainda há criações livres em prosa. A grande importância da edição dessas obras é a expressão das diferentes culturas indígenas, criadas por autores nativos. É a voz e o olhar do índio que ganharam relevo. E nós ganhamos com isso: estudiosos, pais, professores, crianças e jovens.
A produção de Daniel Munduruku (recontos do povo Munduruku e de outras culturas indígenas, livros informativos, textos memorialistas/autobiográficos, criações, expressões pessoais) tem se destacado na produção nacional. Juntamente com ele estão: Yaguaré Yamã, Olívio Jekupé, Kaká Werá Jekupé e muitos outros reunidos no
Pequeno Catálogo Literário de Obras de Autores Indígenas, publicado pela editora Global em 2008. A publicação desse catálogo nos leva a crer que agora é a voz do índio que conta as histórias para as crianças e os jovens. E que há um ineditismo nessa produção de autoria indígena, não só no Brasil, como também em países da América Latina.
Desde 2007, o grupo Letra Falante tem lido, estudado e pesquisado a produção de livros de autoria indígena e de obras de autores não indígenas que recontam as histórias da oralidade brasileira. Além disso, encontrou-se com o autor Daniel Munduruku, na Estação das Letras, o que rendeu os frutos que agora podemos compartilhar: as 20 resenhas de livros de autoria indígena e uma resenha do autor Elias José, com recontos de histórias indígenas.
Para a edição da nossa produção, contamos com a colaboração de:
Barbara Andersen (revisão da bibliografia)
Vânia Salek (revisão de textos, com o novo acordo ortográfico)
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