Índios Ticuna O livro das árvores Global, 2006 96 pp.
Em tempos de discussão sobre o desmatamento da floresta amazônica, em que organizações nacionais e internacionais trocam acusações sobre a responsabilidade pelo descaso político em relação ao meio ambiente, o movimento da população indígena Ticuna nos dá um exemplo importante, ao investir na manutenção de sua cultura e lutar pela preservação ambiental em seu meio. No cerne dessas duas situações, está a questão da posse e do uso da terra em nosso país. Com propósitos pedagógicos, através de seus professores bilíngues, o povo Ticuna organiza um projeto em educação ambiental, desenvolvido desde 1987, como nos relata Jussara Gomes Gruber na apresentação de O Livro das Árvores. O projeto foi iniciado com o levantamento de dados e elaboração de desenhos para material de apoio às aulas de ciências em suas aldeias e, hoje, chega a integrar o programa do curso de formação de professores Ticuna, promovido pela Organização Geral dos Professores Ticuna Bilingues. O livro tem um projeto gráfico belíssimo, impresso em papel couché a quatro cores, com ilustrações ingênuas e ricas, em traços característicos de espontaneidade. Como destaque, entre tantas belezas, temos a transformação dos troncos de uma samaumeira em rios que correm pela floresta e o desenho em espelho, na página 23, da paisagem refletida nas águas do rio. Sem preocupação com proporções, algumas ilustrações revelam a força das árvores ao mostrar o interrelacionamento de animais com seus troncos e folhas. Os desenhos, em sua maioria, são produções individuais, enquanto os textos resultam de um trabalho coletivo. Em 1997, a obra mereceu o prêmio da FNLIJ como melhor livro informativo e melhor projeto editorial — hoje, sua importância cresce junto aos leitores. Suas breves histórias relatam a importância das árvores na formação da cultura dos índios Ticuna. Os textos são poéticos (A floresta é a coberta da terra), são informativos (Algumas árvores são próprias da terra firme... outras nascem na várzea...), contam sobre a criação do mundo, a origem das pessoas e dos clãs, relacionando-os às árvores e aos animais. Contam lendas conhecidas, como a do Curupira, descrevendo-o como o pai da samaumeira ou o dono do jabuti. Lendas menos difundidas, como a do Mapinguari, do Daiyae, do Beru, que ”é a mãe do macambo, ngu...”
Na última história, sobre o Buriti, os Ticunas dizem: “(...) fazem parte da nossa vida, da nossa cultura. As pessoas estranhas, que vêm de fora, não entendem esses significados. Entram na mata e destroem tudo. As árvores, a floresta, não têm sentido para elas. Têm apenas o sentido do lucro que a madeira pode dar.” |