Elias José Ao pé das fogueiras acesas il. André Neves Paulinas, 2008 48 pp.
Nas labaredas das gerações, o tempo dispara fábulas. E o homem conta a sua arte, aquecido pela magia primitiva da oralidade. De Esopo a Elias José, apenas um sopro, nas diferentes formas de fabular que resgatam o imaginário universal. E o que é de um povo expande-se a favor da humanidade ao pontuar-se através da recriação. Da ágora — praça pública dos gregos, local dos discursos e discussões na Antigüidade Clássica — aos dias atuais, ainda que o registro das civilizações nos chegue sob a forma de documentos escritos que comprovam ou não a sua autenticidade, o fato é que o homem é um articulador dos tempos. À procura do conhecimento não somente de sua história e da origem da humanidade, como também da magia dos seus inúmeros mitos, lendas e fábulas. Se, pelo mito, a história de uma civilização pode ser contada pela carga simbólica que adquire para uma determinada cultura; e se, pelas lendas, pode ser sonhada pela narrativa fantasiosa que as inclui; pelas fábulas, o homem encontra o caminho para se exemplificar por meio da representação de uma idéia abstrata, através das figuras dos animais. Nas fábulas indígenas da obra Ao pé das fogueiras acesas, de Elias José, esta exemplificação procede a cargo da cultura a que elas remetem. Uma exemplificação de ensinamento, própria da nação, em que pesa a sua sobrevivência no meio onde vive. Transferindo a esperteza e a inteligência aos animais que apresentam desvantagem física frente aos outros, as fábulas suscitam situações que sugerem como superar os medos, reagir face ao perigo, ser criativo, estar atento ao inesperado, sobreviver na mata, enfim. Mas não é por esse viés que o reconto delas feito por Elias José chega ao leitor. É pela força encantatória da ludicidade que sua narrativa o transporta, de maneira muito prazerosa, ao rito da nação indígena, onde muitas histórias são aquecidas e recontadas ao redor da fogueira. O mito indígena, assim, com poesia, é retomado e nos tornamos também parte daquela nação, daquela floresta. Em seu reconto das fábulas — que, no sumário, aparecem com vinhetas imbuídas de detalhes dos animais, ilustrados por André Neves —, o autor, com sua habilidade indiscutível de contador de histórias, entremeia cantos que lembram brincadeiras provocadoras de crianças arteiras, com a utilização rítmica recorrente dos “Olé, olá, olé, oliri-ri” que iniciam ou finalizam versos, como nas histórias “ O jabuti e a onça” e “O jabuti e o elefante”, e mantém o mesmo entusiasmo de jocosidade em “A esperteza do sapo”, “A raposa e o homem”, “A raposa e a onça” e “As trapalhadas da aranha-caranguejeira”, com uma narrativa tão quanto consistente e repleta de diálogos. Ainda, em um testemunho de amor à tradição, que apresenta logo na introdução, Elias José homenageia “Esopo, La Fontaine, Sílvio Romero, Câmara Cascudo e muitos outros” e avisa ao leitor para não buscar nas fábulas somente lições de moral. Defende, antes, “as mil formas de fabular e de refabular” para que a chama de imaginárias fogueiras continue vibrando, e expressa a necessidade de não esquecermos a tradição e cuidarmos dos dias atuais, quando afirma:
Tanto Elias José como André Neves, cada um a sua maneira, participam do existencialismo fabuloso ao recriarem a sua própria fábula, tão verdadeira, na intertextualidade com o fio condutor primeiro, o das fábulas indígenas. Com independência um do outro, ainda que alimentados pela mesma linguagem da ludicidade, abrem campos de alimentos distintos ao nosso olhar que, por sua vez, também recria. Sai o leitor ganhando duplamente, embevecido pelo clima de magia e poesia que perpassa toda a excelente edição da Paulinas, cujas cores diversas e harmoniosas de páginas — em tons que passeiam do preto ao amarelo vibrante — criam a atmosfera propícia e também fabulam para contar a noite dos tempos. |