Você lembra, pai? 
 Daniel Munduruku

Resenhando Daniel:
Um Duo no Espelho

Comentários de
Dilma Bittencourt



Daniel Munduruku
Você lembra, pai?

il. Rogério Borges
Global, 2003
32 pp.


Você lembra, pai? um reflexo de amor. Daniel Munduruku, em prosa poética, fala ao pai com tintas de agradecimento. Pontua com a voz da saudade. Biografia afetiva, com imagens da dualidade de sentimentos. Colóquio de ternura sem pieguice.

Narra histórias em memórias vivas. Como se cristalizasse fatos, apreensões, receios, percepções, ensinamentos, a dor como amadurecimento. Experiências, tradições, traços de cultura, em busca de registros, de perpetuação. Toma como cenário a própria vida, o cotidiano familiar. O relacionamento pai e filho. E, em paralelo, inclui a referência marido (pai) e mulher (mãe) e as conseqüências dessa relação: reflexão sobre atitudes, certeza de razão, teimosia e sofrimentos. Fala do dual e contraditório comportamento de um ”sabichão” em casa e de um hábil condutor no trato com o outro.

Ao fundo, as iluminadas ilustrações de Rogério Borges, plenas de sombra e luz, focam a repetição, o olhar do menino-índio, ora expressando segurança, ora um misto de inconformidade e desespero. Retratam o homem diante do caminho ambíguo.

Daniel faz um duo de biografia. Espelho de sentimentos, olhares, atitudes, questionamentos. Onde se olha e se interroga, através da figura do pai, como se pedisse confirmação de suas

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intenções e das intenções do pai. Como se falasse atrasado, diante da imagem do pai no espelho. Ele fala do duplo. Um elo forte, da relação de sangue, sangue que lhe deu vida. Em posição confortável de escritor-filho. Onde ainda escuta a voz do pai ensinando, sem tom de reprimenda. E relembra valores repassados por ele, que passeiam com insistência por suas obras. Respeito à Mãe-natureza, aos ancestrais, às etnias, ao outro, ao todo, ao criador.

Em contraponto à esfera de mundo fundamentalista, a obra de Daniel abre à criança o olho do respeito à multiplicidade. Desconstrói as verdades repletas de vazios. Um olhar à sabedoria e ao bom senso. Onde nada se dita. Apenas se conta. As mais simples e profundas histórias de vida.

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