Parece que foi ontem 
 Daniel Munduruku

Ciranda de
Mitos e Ritos

Comentários de
Íris Serodio



Daniel Munduruku
Parece que foi ontem

il. Maurício Negro
Global, 2006
16 pp.


Bonitas ilustrações, feitas com a técnica de pirogravura, em coerência com a abordagem do texto. Podemos ver os mitos que são narrados através dos desenhos, que imprimem um caráter nativo ao relato. O texto é uma viagem por dentro de um ritual indígena, num tempo qualquer que ficou guardado na memória do autor. É a primeira obra publicada por Daniel Munduruku em português e munduruku, língua falada pelo povo de mesmo nome morador do Pará e do Matogrosso.

O mito nos traz:

A terra, mãe de todos, sempre a nos lembrar que somos fios da mesma teia.
O fogo, irmão de outras eras, libera faíscas irmãs das estrelas.
O vento soprado suavemente, irmão-da-memória.

Já o rito nos traz:

Uma fogueira e todos em volta. Um velho entra na roda lentamente, sem pressa, sem deixar rastro. O fogo, o vento e a terra se animam. O velho sábio inicia um ritual secular para

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lembrar que temos raízes no passado. Canta e fala com os espíritos. Um homem e uma mulher se juntam ao velho. Ela trás um balde d’água que respinga sobre o fogo que responde com estalidos quase musicais. O velho faz um gesto com as mãos e todos se levantam e iniciam a ciranda numa batida rítmica com os pés, num bailado harmônico e preciso. Há uma belíssima descrição desse ritual sagrado e que as palavras nos transportam para outro universo: aquele da oralidade e da valorização da memória.

O velho no centro da roda dialoga com o fogo, com o vento, com a terra, com a água, enquanto isso todos se mantém firmes no cântico. Daniel Munduruku nos deixa palavras de encantamento e deleite: “Nosso canto e nossa dança são formas milenares de nos mantermos unidos e de mantermos a harmonia do universo. Sem nosso canto seríamos inúteis. Sem nossa dança nada teríamos. (...) O tempo passa pequeno, sem pressa. Ninguém desiste. Nesse momento somos hummmm.”

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