Daniel Munduruku Outras tantas histórias indígenas de origem das coisas e do universo il. Maurício Negro Global, 2008 48 pp.
Baseando-se apenas na memó-ria, dificilmente duas pessoas contarão a mesma história exatamente da mesma maneira. Imaginemos, agora, quantas mudanças, enxertos, omissões certamente ocorreram em relatos que vinham sendo transmitidos de boca em boca, durante muitos séculos, e só recentemente vêm sendo transpostos para a língua escrita pelos seus próprios autores. É natural que, ao longo de tantos anos, novos fatos e vivências tenham sido acrescidos aos relatos originais. O livro Outras tantas histórias indígenas, de Daniel Munduruku, traz quatro mitos diferentes, de quatro povos indígenas que habitam a vasta região amazônica. Como o próprio título diz, trata-se de mitos que buscam explicar a origem das coisas, de acordo com as diferentes culturas indígenas. Embora seja razoável supor que, em todas as culturas, os mitos para explicar a origem do universo e das coisas encontrem-se dentre os mais antigos, a versão que hoje nos chega, pela escrita de Daniel Munduruku, é posterior ao contato dos nativos com o colonizador branco. Se, por um lado, esse contato deixou um registro negativo (“Vai haver guerra entre vocês. Vocês irão se matar.”, p.16), por outro lado, as histórias contadas pelos missionários parecem ter deixado marcas na cultura de alguns povos, que tentaram trazê-las para o seu mundo, talvez num esforço para compreendê-las melhor, como se verá a seguir. O mito que abre o livro — “Assim começou o mundo”, segundo o povo Aruá, do Amazonas, mostra, logo no início, que, para os aruá, água e mundo são uma coisa só: “(...) num tempo antigo o mundo não tinha água. (...) Naquela época não havia ninguém, tudo era vazio, não existia mundo.” Sentindo-se sós, a mãe do mundo (uma jia) e um veado-mateiro, nascidos de si mesmos, resolveram “ter filhos para povoar o mundo”. Foi então que nasceu Deus, que eram três: só que dois irmãos e uma irmã. Um dia, o irmão mais novo, de nome Paricot e o verdadeiro criador de todas as coisas, desejou se casar. Mas a única mulher existente era sua irmã. Paricot, então, tirou uma mulher do buraco da casa do cupim. Assim como Eva foi tirada de uma costela de Adão. O mito seguinte — “A origem do fogo”, segundo o povo Tariano, do Amazonas, também diz respeito ao que parece ser uma tentativa de compreensão/assimilação dos costumes trazidos pelos missionários católicos, particularmente em relação ao comportamento das mulheres indígenas. Neste mito, em que o fogo é também associado à luz, o filho do Sol desce à Terra a fim de trazer “alguns costumes (...) para mudar o de vocês homens. Todos cuidarão de suas mulheres para fazer delas gente de bem. Elas (...) se comportarão de forma digna”. Diante de tais palavras, os nativos sentem medo e tristeza: “Nossas mulheres nos contavam coisas boas em nossos ouvidos e nós fazíamos o mesmo. Agora, por que o nosso rosto está como o de quem quer chorar?” O comportamento das mulheres indígenas é questionado com maior clareza quando o moço pescado das águas reluta em comparecer a uma festa na aldeia: “Num primeiro momento o moço não quis ir, por achar que as mulheres poderiam não compreender o seu jeito de ser e querer forçá-lo a coisas que ele não queria (...)”. “O buraco no céu de onde saíram os Kayapó”, mito desse povo do Pará, é mais curto e direto, aparentemente tendo sofrido menos influência de outras culturas. A história enaltece aqueles que tiveram a coragem de trocar o céu pela Terra, para se tornarem grandes conhecedores da floresta. Finalmente, para comprovar a diversidade das culturas indígenas, temos um outro mito sobre “A origem do fogo”, este segundo os Bororo, povo de Mato Grosso. Aqui, mais uma vez se percebe que algumas partes da história se perderam e/ou se modificaram pelo caminho. A origem do fogo propriamente encontra-se logo na primeira linha: “Num tempo muito antigo, os Bororo viram um macaco acendendo o fogo e aprenderam a acendê-lo também”. Daí em diante, a história muda de rumo e mostra como o macaco, por ser esperto e por conhecer o fogo, conseguiu enganar o sempre estúpido jaguar.
As ilustrações foram feitas por Maurício Negro, que utilizou “pirogravuras, colorizadas com anilina, café, açafrão, cebola, óleo de nogueira, urucum e outros pigmentos naturais”, como se lê na terceira capa. Maurício mesclou materiais característicos das culturas indígenas (pigmentos naturais) e uma técnica de cultura não-indígena (pirogravura) para criar ilustrações de alta qualidade e forte impacto visual. Donde se conclui que o encontro de culturas diferentes pode resultar em produtos que embelezam a vida e engrandecem a humanidade. |