Catando piolhos: contando histórias 
 Daniel Munduruku

Nessa Hora,
o Mundo Para

Comentários de
Rosane Villela




Daniel Munduruku
Catando piolhos,
contando histórias


il. Maté
Brinque-Book, 2006
48 pp.


Nos dias atuais, tão importante quanto ensinar a história indígena em nosso país, é falar dos valores que a sua tradição cultural, na relação com o outro, nos ensina. A história nos aponta os caminhos destas nações desde a colonização e conquista da América, enquanto Daniel Munduruku nos faz refletir sobre os nossos descaminhos.

Com o olhar sensível, que repousa nas suas raízes, o autor de Catando piolhos: contando histórias, em oito relatos, discorre sobre a vida da sua comunidade indígena. Premia suas lembranças na filosofia de vida comunitária para mostrar os valores, os hábitos, os costumes e a tradição de sua nação.

Catar piolhos e contar histórias ao mesmo tempo é apenas uma das várias maneiras de priorizar os relacionamentos e formar o homem. Assim como caçar; sentar ao redor do fogo aceso no centro da casa, para a alimentação do corpo e para as conversas compartilhadas no respeito e na atenção; brincar para aprender; ouvir os ensinamentos do pajé e dos ancestrais. Atos simples e rotineiros que, alimentados pelo amor e transmitidos pelas gerações, têm uma dimensão fundamental: a social, a da formação de um ser comunitário, em seu estar no mundo como indivíduo.

Além de contar histórias e responsabilizar-se pelo registro da vida de sua aldeia, Daniel imprime lições, disfarçadas nos relatos que perpassam a sua obra. Lições de vida, em ritmo lento, como o rio, poético e melodioso, onde a pressa não tem vez e a sabedoria é a voz que comanda. Adota o tom da natureza e deixa, ao leitor, a floração de suas próprias reflexões, provocando-o a uma revisão dos seus conceitos, estagnados pela intolerância e pelo desamor inerentes à sociedade a que pertence. Compartilha o saber da primazia do todo pelo indivíduo e faz este pensar que “(...). É o homem que ensina e a comunidade toda educa”, ao traçar, no próprio indivíduo, a força motriz da sobrevivência dos valores humanos de sua nação.

Com o seu dom de contador de histórias, que muitas vezes se repetem em seus variados livros — numa narrativa que objetiva o aprendizado dos valores e das tradições, pela repetição dos fatos narrados, própria do modus vivendis indígena —, Daniel prende a atenção dos seus leitores pelo apuro sincero de suas palavras que “significam muitas coisas ao mesmo tempo”.


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As ilustrações de Maté dialogam com o texto. Faixas de losangos, na horizontal e na vertical, aparecem “baseadas em um motivo da pintura corporal tradicional munduruku”, como ela própria explica. Algumas mostram a natureza, os utensílios usados pelos indígenas, os hábitos e costumes — como a vestimenta e a pintura tatuada que parece barba no rosto da mulher-indígena —, enquanto outras denotam a sua própria interpretação do fato narrado pelo autor. Ilustrações em vibrante colorido.

E o que é sutil, é o que mais encanta: o traçado pequeno dos piolhos que surgem e desaparecem, para surgirem novamente, em toda a obra. Como se acompanhassem as inquietações que Daniel transpõe em forma de histórias. Histórias encantadas que nos fazem respirar um outro tempo e lugar.

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