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Daniel Munduruku Coisas de índio il. varios Callis, 2000 96 pp.
Quando Daniel Munduruku escre-veu Coisas de índio, realizou um sonho há muito acalentado: eis que queria oferecer ao leitor, verdadeiramente, uma enciclopedinha
que servisse como material didático àqueles que quisessem conhecer um pouco mais sobre os povos indígenas do Brasil. Seria um “guia de pesquisa”, como declara na guarda. No seu entender, a obra atinge muito pouco da riqueza e sabedoria das culturas nativas e, por isto, sugere e convida os leitores para pesquisar esta realidade tão rica e perceberem como é importante para o Brasil conviver com esta população, também brasileira. Assim, sempre com o objetivo de informar, o autor divide a obra em duas partes: na primeira, introduz a temática indígena de modo geral ao abordar tópicos como: quem são e onde estão os principais povos, aliás, com mapa muito claro da ocupação das nações no território brasileiro (p.17); de onde vieram os povos nativos, com outro mapa elucidativo (p.19); qual a língua de cada tronco e família em rico detalhamento, disposto em quadro sinótico de seis páginas (p. 22 a 27), onde destaca também os vários dialetos existentes; encerra-a com os artigos da nossa Carta Magna que versam sobre os “Direitos dos Índios”. (cf.artigos 231 e 232). Na segunda parte, o autor passa a esclarecer aspectos específicos da cultura indígena, sempre mantendo aquele cunho didático que se propôs tomar. Todavia, a leitura se torna agradável para qualquer leitor porque, ao mesmo tempo, que se ouve Daniel discorrer sobre os assuntos de uma maneira simples e coloquial, como se tivesse nos contando pequenas histórias; vemos o texto, ladeado por singelas ilustrações, que o vão explicando. Como verbetes de uma enciclopédia, ele ensina ao leitor com detalhamento o que é uma aldeia, como podem estar as casas aí dispostas, em que consiste a alimentação destes povos, o que representam o casamento, a chefia e a morte para os nativos; como se dá a educação das crianças, o que são ritos de passagem; os significados de “economia”, “tecnologia” e “trabalho” para o indígena. Pajé ou xamanismo? A importância da cultura e arte indígenas; o papel que a música e a dança ocupam nesta cultura; a terra e o índio, uma coisa só; o conhecimento e a preservação da natureza com suas inserções na medicina. É neste capítulo que Daniel nos conta da profunda ligação entre o índio e a mãe-terra, pois sabem que seus recursos são a garantia de seu sustento. “Infelizmente, os interesses econômicos da sociedade brasileira estão ameaçando a sobrevivência das populações indígenas” (...) “a terra é sagrada e tudo o que for feito a ela hoje atingirá todas as pessoas do planeta, mais cedo ou mais tarde.” Todas essas declarações mostram o pensamento do “ser-índio”, tão diferente do “não-índio”, atual e comum na sociedade brasileira, quando se pensa no descaso, cobiça e irresponsabilidade da ganância econômica de nossos tempos que, sem nenhum escrúpulo, desmatam e espoliam ricas florestas milenares, importantes para a sobrevivência e equilíbrio do meio-ambiente do planeta. Aliás, é oportuno mencionar, neste ponto desta resenha das coisas de índio, que é justamente por esta oposição binária a partir de contrastes que o grande antropólogo Claude Lévy-Strauss (com 100 anos no dia 28 de novembro de 2008) criou o estruturalismo, onda intelectual que influenciou, na segunda metade do século XX, todo o campo das ciências humanas. Esta data, festivamente comemorada na Europa, no nosso país, é centenário especial, uma vez que foi em contato com os índios do Brasil, em expedições no ano de 1930, que Lévy-Strauss teve seu primeiro contato direto com o que chamaria depois de pensamento selvagem. Segundo ele, para compreender o pensamento dos humanos, é preciso compreender a forma como eles utilizam estas oposições para criar uma representação do mundo. Lévy-Strauss esteve entre os bororos e os kadiwéus em 1936 e entre os nambiquaras em 1938. Lévy-Straus coaduna com a posição de Daniel Munduruku quando declara que nos tornamos consumidores bulímicos da riqueza, com uma relação altamente destruidora com o ambiente. (Prosa e Verso, in O Globo, 15/11/2008, p. 6). Com 96 páginas, em papel grosso, Coisas de índio apresenta uma ilustração ao pé do texto no esforço de vários ilustradores, como se pode notar no crédito das imagens: o próprio Daniel traz sua pena na execução de desenhos informativos da disposição das aldeias. Os motivos geométricos das interpretações da natureza e da cultura indígena, a partir do modo de ver xavante, são executados por Siridiwê Xavante. Ainda há a colaboração de Ionite Zilberman e Yaguaré Saterê que trazem outras imagens elucidativas e coloridas, num naipe variado de técnicas da ilustração. É, portanto, uma obra que cumpre a sua finalidade, pois atendendo ao seu objetivo, instiga o leitor a querer saber mais deste ser que é também brasileiro, mas que fala outra língua, pensa de modo diferente, vive em outro ambiente, tem outros valores e é outro cidadão. Porém, o sonho de Daniel não parou por aí. Em 2003, ele nos brinda com a versão infantil pela Callis Editora.
Daniel Munduruku Coisas de índio versão infantil il. varios Callis, 2003 56 pp. No “recado do autor”, Daniel nos expõe os dois objetivos da obra: Ao realizar um estudo comparativo entre as duas obras e ao cotejar os tópicos dos sumários, percebemos que Daniel manteve em ambas quase que os mesmos assuntos listados em ordem alfabética. Há uma pequena alteração na disposição da apresentação daqueles, talvez para adaptar esta leitura informativa ao leitor infantil. Vamos constatar que Daniel emprega um só texto que sofre redução de conteúdo na versão infantil. São as mesmas informações, repetidas numa também forma coloquial de linguagem simples em narrativa de conto. Deparamos, outrossim, com uma atualização de dados da primeira “enciclopédia” para esta infantil de 2003. Por exemplo: Daniel informa 215 povos, na primeira obra, e nos traz 230 povos, na segunda edição de Coisas de índio. Outro flagrante: de 315 mil índios que são contados e distribuídos por 24 estados brasileiros, no texto de 2000, encontraremos mencionados 750 mil (350 mil nas aldeias e 400 mil fora delas), na segunda obra. Os mapas apresentados na página 17 do primeiro livro e página 12 do segundo são os mesmos, porém os povos cotados nos estados têm números diferentes: Amazonas tinha 48 e surgirá com 65 povos, depois. O fato se repete em outros estados. Daniel conta historias de índio: das cinco narradas no primeiro volume, apenas duas aparecem no segundo volume; “Um mito tupi – mandioca, o pão indígena”, “O mito das flautas sagradas munduruku” e um “Relato da atuação de um pajé munduruku” não são relatadas. Em “Direitos dos índios”, percebemos um abrandamento do texto da versão para crianças. Parece-nos que Daniel quis poupar o leitor infantil, ao retirar os artigos da nossa Constituição. Notamos também que o autor suprimiu dois capítulos, abordados no primeiro trabalho. Não encontramos “Tecnologia”, nem “Xamanismo”, no sumário da obra de 2003.
Sem dúvida, ambas as obras nos informam acerca da realidade e da cultura indígenas e nos fazem querer ser parte da teia... Aliás, era esta a intenção do autor como já vimos! Diz o autor, neste segundo volume: “se a leitura deste livro cumprir este papel, então eu terei ajudado vocês a entrar no mundo das COISAS DE ÍNDIO”. |