Yakouba 
 Thierry Dedieu

O guardador
do rebanho

Comentários de
Vânia Salek




Thierry Dedieu
Yakouba

il. do autor
Éditions du Seuil, 1994
36 pp.


O livro Yakouba, do escritor e ilustrador francês Thierry Dedieu, publicado em 1994 pelas Éditions du Seuil (França), é inédito no Brasil. Trata-se de uma obra de arte, capaz de deslumbrar adultos e crianças. Lamenta-se, apenas, que não haja qualquer informação sobre o autor.

O texto de Thierry Dedieu é bastante poético, com algumas rimas internas e ritmo musical, características marcantes dos contos transmitidos oralmente, entre tantos povos, ao redor de fogueiras, de geração a geração. O autor, porém, faz uso desses elementos tradicionais para questionar até que ponto certos costumes devem ser perpetuados apenas em nome da tradição.

Yakouba é um jovem em idade de se tornar guerreiro. Para isso, terá que se submeter a um rito de passagem: matar um leão e levá-lo para sua aldeia. Sozinho com sua lança, o jovem caminha “sous un soleil de plomb” (sob um sol de chumbo) e fica à espera, dia e noite, tentando “oublier la peur qui serre le ventre, qui transfigure les ombres” (esquecer o medo que lhe aperta o ventre, que transfigura as sombras). Subitamente, surge, em página dupla, a figura enorme do leão, com sua boca feroz. Mas o animal está machucado e seu olhar profundo propõe a Yakouba a seguinte escolha: matar um leão já ferido, num embate sem glória, ou deixar que a fera continue viva, saindo o jovem engrandecido perante sua própria consciência. Após refletir a noite inteira, Yakouba deixa o leão em paz. Ao regressar, é recebido pelo silêncio dos homens e designado guardador do rebanho, enquanto seus companheiros tornam-se guerreiros. Então, à margem da aldeia, onde Yakouba permanece, o gado deixa de ser atacado pelos leões.

Embora o conto de Thierry Dedieu, assim como outros contos tradicionais, também traga sua mensagem, esta é apresentada de maneira paradoxal: a desobediência à tradição é proposta num texto que guarda características da tradição oral.

Na defesa de territórios, costumes, dogmas, crenças, ortodoxias, guerreiros matam e morrem. Como um rebanho, seguem ordens de comando. Mas é Yakouba que, ao desobedecer à regra e optar pela vida, vai garantir a sobrevivência de seu povo: o gado, fonte de sustento e de alimentação daquela aldeia, não é mais atacado pelos leões.

O contraste dessas idéias se reflete também nas ilustrações, que privilegia o uso do preto e branco, tanto nas imagens quanto em algumas páginas, onde o texto, com letras brancas, é escrito sobre fundo preto. O livro, de capa dura em marrom e preto, tem um projeto gráfico primoroso, que valoriza a obra do artista. Na primeira capa, que traz apenas o título do livro, o tipo utilizado – uma espécie de carimbo artesanal – funciona, por sua singularidade, como uma assinatura do autor, cujo nome (assim como o da editora) aparece apenas na lombada e na quarta capa. As guardas do livro, que nos remetem tanto à padronagem típica da tecelagem africana quanto à pelagem de alguns animais nativos desse continente, mostram a intenção do artista em sugerir ao leitor a paisagem onde se passa a história.


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As ilustrações, aparentemente feitas com tinta sobre tela, ora trazem informações novas, ora substituem o texto (como no momento citado acima, quando o leão aparece), ora expressam sentimentos. Os ângulos em que são mostradas as imagens, as proporções dos desenhos nas diferentes páginas, a ausência de sorrisos e as expressões fisionômicas enfatizam a tensão que perpassa toda a narrativa.

Tomara que alguma editora se interesse em publicar este livro no Brasil, com a mesma sensibilidade e cuidado da edição francesa original. Nossas crianças bem que merecem!

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