As tranças de Bintou 
 Sylviane A. Diouf

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Carol Sanches



Sylviane A. Diouf
As tranças de Bintou

il. Shane W. Evans
trad. Charles Cosac
Cosac Naify, 2004
32 pp.


“A beleza a todo instante se refaz,
dos olhos que a contemplam”.
Guimarães Rosa

Que olhar é esse que jogamos sobre a África? África da singularidade na multiplicidade. Imensa na extensão, intenção e intensidade. Do excesso e da exceção. Do abundante e do escasso. África da polifonia. Da lágrima clara sobre a pele escura, como a frase do poeta. Do sorriso marfim. África do belo.

Como ter olhos de contemplação sobre as Áfricas? Onde está o belo? Hora de ressignificá-lo.

Sendo guiados pelas mãos de uma menina de pés descalços, cabelos crespos e quatro birotes na cabeça, somos convidados a apurar o nosso olhar e rever a questão da estética. As tranças de Bintou, de Sylviane A. Diouf e ilustrada pelas cores vibrantes de Shane W. Evans traz à tona a força da mulher africana. Sua vez e sua voz. Através de uma narrativa simples, as palavras de Sylviane e as imagens de Evans se trançam, lançando para nós a reflexão sobre o nosso referencial de beleza.

Bintou é uma menina fascinada por cabelo e tem um sonho: usar trança. “Meu cabelo é curto e crespo. Meu cabelo é bobo e sem graça. Tudo que tenho são quatro birotes na cabeça”. Abrimos o livro com o reflexo de Bintou na água. E não é só ela que vê reflexos. Um olhar mais atento percebe que o livro todo é um reflexo do que vemos. E do que somos.

Em uma sociedade que valoriza estereótipos europeizados, que segrega, reconhecer beleza em quatro

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birotes é um desafio. Romper com o senso comum, apurar o senso estético e se banhar nas tradições hoje é uma ousadia. Ousadia que Bintou possui. De jogar na mesa a discussão de que no crespo há beleza. No escuro, nas cores vibrantes, na negritude da pele. Nas pedrinhas do cabelo, birotes e tranças. Esse é um dos trunfos do livro: podermos repensar o Brasil através dos costumes africanos. E não é por acaso que esse livro só foi editado no Brasil e na França: são questões do nosso povo, questões de identidade.

Entender a raça, de onde viemos, quem somos, forma identidade. Nesse Brasil de Bintous, é preciso pensar nas tranças que fazemos e desfazemos. A beleza se refaz pelos olhos de quem as contempla.

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