Joel Rufino dos Santos O presente de Ossanha il. Maurício Veneza Global, 2006 16 pp.
“O segredo da felicidade é a liberdade.
O segredo da liberdade é a coragem.” (Tucídides - historiador grego)
A liberdade tem voz? Tem vez? Canta? Tem cor? Se escreve com letra maiúscula como o nome próprio?
Quanto custa a liberdade? Dá para comprar? Tem preço, tem prazo, dói? E a amizade, se compra, se
vende, se esquece? Também pode escravizar, o amor? Sim. Questões que nos provoca O presente de Ossanha, de Joel Rufino dos Santos, carioca, historiador, professor universitário do Curso de Letras da UFRJ. Através da amizade que nasce entre dois meninos, num Brasil de mais de cem anos atrás, vamos nos deparar com o tema da escravatura no país, com as conseqüentes relações sociais, com a cultura que nos chega via África, com o folclore nacional e com os afetos em questão. Um Brasil branco e preto, de açúcar e escravidão. Um dos meninos se chama Ricardo, é filho do proprietário do engenho e o outro se chama, ou melhor, é chamado de moleque, pois tinham esquecido o seu nome, assim como queriam esquecer de onde vinha. África também foi um nome escrito com letra minúscula até bem pouco tempo atrás, neste Brasil. Moleque é escravo comprado no mercado para brincar com o filho do dono, mas este senhor ignora que, para criança, brincar é coisa séria e os dois descobrem, brincando, o teor das profundas ligações. Um dia, ao se perder no mato à procura de passarinhos, moleque encontra Ossanha, que lhe presenteia com um pássaro cora, o qual possui um lindo cantar. Moleque se perde no mato e encontra o canto da liberdade através de Ossanha. Moleque se liberta da escravidão interna e encanta todos, que querem comprar a maravilha impagável, a liberdade. Até mesmo seu dono não o convence a vender seu pássaro raro. Então, vende moleque, para desespero de Ricardo, que há muito percebera ser ele o escravo entre os dois, dependente do afeto que nutria por moleque. Cotejando a multiplicidade dos significados da escravidão, ora político, ora afetivo, ora factual, Joel e Maurício Veneza, o ilustrador do livro, nos trazem os deuses da África, que na fala de meu filho de seis anos, me diz: - Ossanha parece índio, mamãe, mas não é. Tanto as questões africanas, quanto as indígenas, estiveram relegadas a um plano menor; às vezes mescladas, sobrepostas, pouco conhecidas nas suas origens, desdobramentos e assimilações.
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