A guerra dos fazedores de chuva com os caçadores das nuvens: guerra para crianças

A guerra que
virou palavras

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Ninfa Parreiras



José Luandino Vieira
A guerra dos fazedores de chuva com os caçadores das nuvens: guerra para crianças

il. do autor
Caminho, 2006
28 pp.


Uma obra não publicada no Brasil, mas que merece nossa atenção é A guerra dos fazedores de chuva com os caçadores das nuvens: guerra para crianças, do autor angolano, de origem portuguesa, José Luandino Vieira. Publicada em Portugal pela Editora Caminho, traz texto e ilustrações de Luandino, que participou do movimento de libertação nacional da República Popular de Angola. Em sua única obra dedicada ao público infantil, o autor mostra um confronto entre bichos e humanos. Um conflito entre criadores e consumidores. Entre fazedores e caçadores. A morte de um rio. Seria uma fábula? Um conto? Um poema? Até nesses problemas conceituais da literatura, o texto de Luandino escapa a classificações e rótulos: é uma obra singular, única, poética.

Em seis capítulos, a narrativa enxuta, em forma tradicional angolana, cheia de sonoridades, mostra os embates entre os donos da terra e os de fora, entre invadidos e invasores. Uma denúncia bem contemporânea e propícia à reflexão e ao debate sobre o meio ambiente e o autoritarismo, entre as crianças e os adolescentes. E a guerra, mais que tudo, é um jogo de forças, de poderes, assim como a literatura é também jogo, mas de palavras, de sentimentos.

Como se fossem versos, o texto se apresenta em forma de um mussosso da Angola, uma espécie de relato da oralidade, condensado, com predomínio de ações e de musicalidade na linguagem. Ele faz parte da obra De rios velhos e guerrilheiros: o livro dos rios, romance publicado também em Portugal pela Editora Caminho, em 2006. As palavras regionais são preservadas, como Mbunda, Kipakasa, o que empresta uma estética sonora ao texto. Mesmo que um leitor brasileiro não reconheça alguns vocábulos, o contexto ajuda a leitura e há um glossário ao final da obra.

Os desenhos, contornados com lápis preto, reproduzem cenas, animais, armas e demais objetos, alguns já vistos nas guardas do livro, que trazem os esboços das imagens depois coloridas e ampliadas. Neles, além da presença do cotidiano, de temas da terra, há a presença do maravilhoso, representado pelos animais e alguns monstros. O grafismo é a marca das ilustrações de Luandino, com o registro de imagens repletas de representações simbólicas. O fundo e o colorido de cada desenho são feitos por riscos que lembram uma tecelagem de fios, de palavras. Afinal, um texto é uma tecelagem das palavras. E a obra de Luandino é toda artesanal!

Quanto à linguagem, o fantástico atravessa os diálogos e dissolve o clima de tensão entre as forças opositoras. O texto tem a sonoridade de uma canção, marcado por cortes, em forma de versos:

“10. Mbunda ia Kibaia nunca mais fez chover; o sangue
da guerra virou lama; e a lama virou pedra;
e a pedra, rocha de ferro;
11. O rio Kipakasa morreu; a terra repousou por fim;
E viram as crianças que tudo estava bem e recomeçaram
a crescer;
12. Guerras do cacimbo e da chuva, quem resolve é o jacaré.
Mahezu.”


Dá gosto ver uma obra tão poética e lúcida com os traços da cultura de Angola, com a linguagem marcada pela oralidade e os desenhos pelos símbolos e sinais da cultura popular. Lanças, instrumentos de batalha e instrumentos musicais se misturam a aves, bandeiras e tapetes para nos dizer que a África são tantas.

Para o deleite e a curiosidade do leitor, a editora reproduziu os manuscritos do autor, com cortes, correções, rabiscos, setas. São lindas e poéticas estampas dos manuscritos das palavras e dos desenhos de um escritor também ilustrador, que se mostra, como um criador, cheio de dúvidas, de não verdades. Bravo! Isso é literatura!

Se tentarmos seguir o processo de criação literária de Luandino, nos deparamos com um jogo de versos, um conflito do autor com a sua tecelagem. Para nós, uma constatação de que o exercício da escrita é artesanal e subjetivo. É cheio de vai-e-vem, sem linearidades. Recortado por nuances, por lacunas, por rios, que muitas vezes se secam, por coisas que se transformam... Como a guerra em lama, a lama em pedra, a pedra em palavra.

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