Heloisa Pires Lima, Georges Gneka e Mario Lemos A semente que veio da África il. Véronique Tadjo Salamandra, 2006 56 pp. Para falar de uma árvore, a gaúcha e antropóloga Heloísa Pires Lima convidou o moçambicano Mário Lemos e o marfinense Georges Gneka. Juntos, os três escreveram A semente que veio da África, um livro que traz textos informativos e de ficção, independentes entre si, o que significa que podem ser lidos em qualquer ordem. As ilustrações ficaram a cargo da também marfinense Véronique Tadjo, residente na África do Sul.
Mas, afinal de contas, que planta é essa, capaz de merecer a atenção de quatro artistas de três países
e dois continentes? Trata-se, nada mais nada menos, da “árvore da palavra”. Ou da “árvore de onde se
colhem histórias”. Ou, ainda, da “árvore da sabedoria”. Baobá, embondeiro, adansônia: uma árvore gigante, encontrada em quase todo o Continente Africano ao sul do Saara, a servir de elo de união entre povos de línguas, hábitos, religiões e culturas tão diversos quanto os nomes que lhe emprestam. Cada um dos autores escreve três textos diferentes, cabendo os dois iniciais a Heloísa Lima. No primeiro deles, ela conta como surgiu seu interesse por essa árvore e convida os leitores a colher histórias como se colhem frutos. Logo a seguir, a autora dá início a uma narrativa poética, pontilhada de onomatopéias, na qual conta a história de como “duas sementes bem pequenininhas” viajaram por grande parte do continente africano para se transformarem em dois gigantes. Mas, para contar a história do primeiro gigante, Heloísa Lima passa a palavra a Georges Gneka, nascido em Abidjã, capital da Costa do Marfim. O autor marfinense, então, conta a história do baobá e do motivo de sua estranha aparência, à semelhança dos mitos de criação de nossos povos indígenas. E, provavelmente, semelhante a outros mitos, de outras partes do mundo, de outros povos que vivem integrados à natureza, e que transmitem, oralmente, valores, tradições e ensinamentos, de geração em geração. Em seguida, em “O baobá e eu”, Gneka fala das visitas que fazia, quando menino, às diferentes aldeias onde ainda viviam seus avós paternos e maternos, ressaltando a importância das conversas e histórias que ouvia. Importância tanto para sua compreensão do mundo, quanto para seu próprio destino: - Esse menino vai nos deixar e vai viver do outro lado da água (mar) e talvez não volte tão cedo para nós. Agora é de novo a vez de Heloisa Lima dar o seu recado. “A mesma árvore e seus muitos nomes” abre espaço para a autora falar sobre botânica, sobre a origem dos nomes científicos, sobre as utilidades da adansônia e sobre muitas outras coisas que aprendeu sobre ela. Seguem-se algumas páginas com belas fotografias da famosa árvore. Na última página, Heloisa agradece e cita os nomes das pessoas que a ajudaram nas pesquisas e na elaboração do livro. Finalmente, Gneka e Lemos relembram jogos de sua infância e falam sobre eles. As regras de um dos jogos (awalé), por serem um pouco mais detalhadas, acompanham o livro sob a forma de encarte. Nas belas e expressivas ilustrações de Véronique Tadjo, observa-se a predominância de cores vibrantes, em desenhos inspirados nas artes gráficas tradicionais do continente africano, alternando formas geométricas e outras mais sinuosas, assim como o livro alterna textos informativos e ficcionais. É
A semente que veio da África é um livro muito bem feito do ponto de vista gráfico, com ótima impressão de cores, facilitada pela boa qualidade do papel utilizado. A distribuição harmoniosa e equilibrada de texto e ilustrações agrada aos olhos. O formato do livro e sua capa bonita e colorida facilitam o manuseio e convidam à leitura. |