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Doce diversão
Comentários de
Emilia Machado
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Anne Wilsdorf Jujube
il. da autora
Kaléidoscope, 1998
40 pp.
O conto Jujube transcorre de maneira descomplicada, típica do agir das crianças. É um texto divertido
e doce, que provoca a imaginação com rimas fáceis de ritmo ágil e a ilustração é caprichada em detalhes
cômicos. A história recorre a características de ambientação africana, mas sem compromisso didático com o
aspecto cultural. Como disse a autora, em entrevista, é uma África re-criada; o cenário todo, a fauna e as
plantas foram um pouco inventados a partir do sentimento que ela guarda do seu lugar de nascença e que achou
por bem trazer para esta obra.
A tarimbada Anne Wilsdorf tem no bom humor a força motriz de suas obras, na maioria, voltadas para crianças
de até cinco anos de idade. Ela é de nacionalidade francesa, mas nasceu em Angola. Formada em Belas Artes,
em Lausanne, na Suiça, onde mora, ela já viveu no Congo Belga (Congo), na Argentina e na Bélgica. Sua produção
é vasta e conhecida em vários países. São dela, por exemplo, as ilustrações da coleção “O Rei dos Ogros”, da
editora Escala Educacional, voltada para a alfabetização.
Mesmo sem o recurso à sua biografia, a experiência da autora é notável neste livro, porque ela consegue
preservar o lugar da imaginação ao tratar de temas reais como a adoção e a aceitação do diferente, sem
torná-los de tal forma visíveis que tomem o espaço da fantasia.
Aqui, onde o tema central é a adoção, uma menina encontra um bebê abandonado e decide levá-lo de presente de
aniversário para a mãe. Só que o leitor ainda não sabe que a mãe da menina já tem nove filhos, e então, como
será? O encanto da história está na liberdade e no coração aberto de uma família numerosa e de poucos
recursos, ambientada na alegoria de uma África de vida simples e sem luxo. Pouco importa quão imaginário seja
o vilarejo rural africano ou as plantas, ou os nomes. A começar por Jujube, que dá título ao livro e
é uma planta asiática e não simboliza qualquer coisa da cultura africana. A verdade é um fator muito
importante nos contos infantis. A fantasia pode ser ampla, mas as crianças percebem quando há discrepância
entre os personagens e suas atitudes. Em Jujube, a veracidade está nos valores de família como tal.
A harmonia na casa e o aspecto de uma vida social solidária aparecem até em relação aos animais, nos desenhos.
Como se trata de um livro de ilustrações, grande parte da narrativa está contida nas imagens que são de um
dinamismo tão grande que os olhos têm prazer de passear por elas e curiosidade em examiná-las. Os personagens
apresentam sempre um sorriso nos lábios. A atmosfera é de alegria e a ambientação é familiar, repleta de
elementos reconhecíveis pelos pequenos leitores em formação. A aceitação inter-racial é uma proposta que, por
exemplo, está apenas na ilustração, onde a criança abandonada é branca e sua adoção é cogitada em uma família
negra, de forma reversa àquela que nós estamos acostumados. Até os animais de diferentes espécies interagem
em harmonia e compartilham da sorte da menina órfã.
No entanto, toda essa análise é para dizer que este livro não se enquadra na lista daqueles chamados de
origem ou influência da cultura africana. Assim como acontece aqui no Brasil, os países estrangeiros sofrem
com a tensão entre o tratamento comercial e o literário de suas publicações. Comercialmente, Jujubeestá
inserido na lista de livros que tratam sobre cultura africana – explorando ainda mais o fator de a autora ter
nascido na África. Porém, nos artigos de pedagogia e de análise literária, este livro é considerado por tratar
dos temas do amor, da coragem, generosidade, aceitação, e outros relativos à adoção.
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