Rogério Andrade Barbosa Nyangara Chena, a cobra curandeira il. Salmo Dansa Scipione, 2006 24 pp. A literatura que fala lendas fala do universal. As lendas respiram através da contação transmitida através dos tempos. Uma narrativa fantasiosa, que acorda as raízes de um povo através da oralidade. Se a oralidade morre, a lenda é esquecida. E se ela é esquecida, a identidade de um povo também pode se perder. Tradição, ética, educação fazem parte de qualquer povo que se preze povo. Assim como a palavra que ele utiliza para manifestar-se. Na palavra, o povo se diz, se conta, se resolve, e é conhecido por outros povos. E as lendas são um dos meios para que a palavra o personifique, camuflando, em fatos fantasiosos, a sua história e os seus valores. Rogério Andrade Barbosa é exímio conhecedor das inúmeras lendas que inundam os países da África. Como escritor, alia a sua vivência de ex-professor voluntário das Nações Unidas na Guiné-Bissau e a experiência de pesquisador das histórias do fabuloso universo africano à habilidade de contador de histórias. Premia a oralidade em função do universo das lendas, para que a cultura e a tradição dos lugares a que elas se remetem nos sejam transmitidas. Na obra Nyangara Chena, a cobra curandeira, Rogério conta a história de uma cobra que tem, como o próprio título diz, o poder da cura. Esta lenda mais encanta do que causa estranhamento, e o autor, hábil, consegue nos conduzir para o maravilhoso dessa hipótese que gira com as personagens até o fim de seu texto. Então, o que é fabuloso vira realidade ante os nossos olhos. A realidade de um povo, o xona, que viveu no interior do Zimbábue. Com os seus valores éticos, a sua identidade cultural, e a sua memória. As ilustrações primorosas de Salmo Dansa trazem ainda maior prazer, ao proporcionar uma outra possibilidade de leitura: a de sua arte. Através da presença constante da cobra nas páginas do livro, ele oferece ao leitor a sensação de suspense, envolvendo-o numa expectativa prazerosa do encontro com o animal, um ser ainda invisível no desenrolar da história, mas, ao mesmo tempo, visível aos nossos olhos e tão próximo de nós. O medo face ao gigantesco animal, a expectativa do encontro e a alegria pela solução encontrada juntam-se, assim, ao texto de Rogério Andrade Barbosa e tornam o leitor um co-participante da história. |
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