Autores Brasileiros II
junho de 2008

Um passeio pela África
Alberto da Costa e Silva
Rodrigo Rosa

Os gêmeos do tambor
Rogério Andrade Barbosa
il. Ciça Fittipaldi

O presente de Ossanha
Joel Rufino dos Santos
il. Maurício Veneza

A semente que
veio da África
Heloisa Pires Lima, G. Gneka e M. Lemos
il. Véronique Tadjo

 Autores Estrangeiros
julho de 2008

A África,
meu pequeno Chaka...
Marie Sellier
il. Marion Lessage

Histórias de Ananse
Adwoa Badoe
il. Baba Wagué Diakite

Os sete novelos:
um conto de Kwanzaa
Ângela Shelf Medearis
il. Daniel Minter

Tranças de Bintou
Sylviane A. Diouf
il. Shane W. Evans

 Outras Vitrines
Histórias mal-assombradas do tempo da escravidão
Adriano Messias
il. Andréa Corbani


Lebre que é lebre
não mia
Celso Sisto


Rua Luanda
Edmilson A. Pereira
il. Rubem Filho


Um safári na Tanzânai
Laurie Krebbs
il. Julia Cairns


Coleção Marrom de Terra
Lia Zatz
il. Alexandre Teles


Cadê você, Jamela?
Niki Dale



Obras literárias de origem africana:
Que literatura é esta? Africana?

Apresentação de
Ninfa Parreiras


De origem, de influência, de temática africana, o certo é que há uma literatura que tem abordado a África e tudo o que pode se atribuir a ela: a diversidade, a multiculturalidade, a etnia, as tradições milenares, as artes, a culinária, os rituais...

Mas, para falar da África, de uma cultura multifacetada, não podemos esquecer que falamos de um continente muito antigo, com extensões gigantescas, de tradições culturais variadas, de muitos países, povos, línguas, dialetos, tribos, religiões. A África são muitas Áfricas! A África são muitos povos!
        A produção de obras literárias para crianças e jovens se insere no que podemos chamar de um mercado editorial, em que os editores produzem para atender ou criar demandas. E os professores e pais e outros adultos adquirem as obras, por compra ou empréstimo, até que o livro chegue às mãos dos pequenos. Na verdade, há uma grande “feira” de livros, onde temos que saber escolher o que pode haver de melhor para as nossas crianças e separar as frutas tenras e saborosas daquelas sem gosto.
        Em 2003, foi decretada a Lei Federal n.º 10.639, que mudou a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), ao estabelecer a obrigatoriedade do ensino e transmissão de cultura africana e afro-brasileira nos estabelecimentos de ensino públicos e privados de todo o País. Há debates a favor e contra essa decisão, com receio de que haja mais segregação ao se destacar a história do povo negro de outros temas curriculares.
Nitidamente, essa proposta aqueceu a edição de livros infantis literários e informativos, o que pode ser verificado na produção recente nacional. Muitos livros, brasileiros e traduzidos, têm circulado nas feiras e livrarias dedicadas ao setor. Alguns deles com o cuidado que os leitores merecem: informações sobre o país africano, o povo a que se refere a história, por exemplo.
Outros livros, sem maiores cuidados, trazem a África como uma unidade cultural, com conhecimentos rasos e superficiais e, muitas vezes, preconceituosos. Por exemplo, a produção caracterizada como literatura afro-brasileira, o que seria? A literatura feita por autores negros? A literatura que aborda a África? A literatura que desenvolve o hibridismo entre Brasil e África? Na África, não há apenas uma religião, nem podemos afirmar que os orixás são deuses africanos — ou que os cultos nagôs ou yorubanos são os principais do continente africano. Não podemos, tampouco, tratar as línguas africanas que vieram para o Brasil como dialetos. Sabemos que havia dialetos lá, mas o que veio para o Brasil foram línguas (a exemplo da nagô, quimbundo, umbundo, mandinga).
Os negros que desembarcaram na Bahia, por exemplo, são de origem e cultura diferentes dos que desembarcaram no Rio de Janeiro ou em Pernambuco. Sorte a nossa! Isso engrandeceu a herança cultural que devemos a eles (religião, língua, oralidade, hábitos, habilidades corporais, plásticas e musicais...). É lamentável que em muitos recontos, histórias e textos de informação dirigidos ao público infantil essa diversidade se perca e venha como um único produto-descendente “negro”. A África está além da nossa capacidade de conceituação, exatamente porque as culturas são dinâmicas e interativas. Entendemos que afro-brasileira é toda produção cultural nossa, nacional, brasileira. Afinal, somos todos filhos da África!
Fomos constituídos também pela cultura africana, além da européia e da indígena. Melhor seria chamar esta produção editorial de literatura de herança, de temática africana. Assim, seríamos mais justos com a riqueza cultural africana e com as variações brasileiras de traços oriundos do Velho Continente Africano.
Como a literatura infantil tem suas raízes na oralidade folclórica de diferentes povos (a exemplo dos contos de fadas), no Brasil, isso não é diferente. A nossa literatura dirigida à infância nasce e se consolida com traços do folclore nacional, de culturas variadas, como a africana, a indígena, a portuguesa, a árabe. Monteiro Lobato foi genial ao inaugurar uma literatura voltada às nossas origens e ao que há de mais autêntico no hibridismo cultural do qual fazemos parte.
Que venham os livros de histórias ilustradas, de contos, de novelas, nos moldes da produção do pioneiro autor Joel Rufino dos Santos, também historiador, que começou a publicar na década de 70 do século passado, ainda quando se formava a literatura infantil contemporânea que hoje conhecemos. Em sua obra, Joel tem primado pelo respeito à oralidade, que é marca da tradição cultural africana e dos povos que dela herdaram marcas na linguagem. Além disso, dá voz a personagens do povo brasileiro, a outros folclóricos, sábios de uma cultura popular de raízes africanas. Deixamos aqui umas palavras do consagrado Mia Couto sobre a África: "Este Continente é, ao mesmo tempo, muitos continentes. A cultura africana não é uma única, mas uma rede multicultural em contínua construção."

Dobras da Leitura
Ano IX - N.º 54 - abr. 2008
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