Professor-Leitor:
de um olhar ingênuo
a um olhar plural
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de Tereza Bom-Fim

Alma de Artista, 2008

contato: almadeartista.tereza @gmail.com


Professor-Leitor:
de um olhar ingênuo
a um olhar plural

Edmilson Sanches
(Prefácio do livro)


A bengala é a extensão do braço, a muleta é o complemento ou reforço da perna, o amuleto é a explicitação dos medos. Mas, o livro é o prolongamento da consciência — e a leitura, sua decodificação e enriquecimento.
Não há nada que se compare ao ato de ler. Nem mesmo a apreciação de uma pintura, a contemplação de um pôr-do-sol. Ler é mais que ver — é (re)viver, é vivenciar. Ler é criar e recriar a coisa lida dentro de nós.
E lemos tão pouco... E, freqüentemente, lemos tão mal...

* * *

Imagine a seguinte hipótese:
Digamos que a Neurobiologia, a Neurofisiologia, a Neurocirurgia tivesse chagado ao ponto de transplantar cérebros (não me pergunte para quê). E que o cérebro de João fosse colocado, intracranianamente, em Maria. E que, por sua vez, o cérebro de Maria fosse para a cabeça de João. Pergunta-se: João, agora com o cérebro de Maria, seria o João ou seria a Maria?
A pergunta é retórica: embora uma ou outra pessoa desavisada possa falar o contrário, João, com o cérebro de Maria, é Maria — assim como Maria, em cuja cabeça está o cérebro de João, é João. Deste modo, fazendo blague, não se deverá estranhar o olhar feminino e o menear adamado das mãos do corpo de João admirando o novo esmalte das unhas recém-pintadas. Tampouco se deverá assustar com a voz grossa e os gestos másculos transmitidos pela fisiologia do corpo de Maria.
Portanto, está provado: você é o seu cérebro. O corpo (ou as demais partes dele) é tão-somente um equipamento que, sob ordens, leva o cérebro para passear. No extremo, até podemos viver sem diversos membros do corpo, podemos trocar de coração, de fígado, de rim e até de rosto... Mas não podemos trocar de cérebro ou ficar sem ele, sem perda de identidade, sem deixarmos de ser o que somos ou éramos.
Se somos o cérebro, por que cuidamos tão mal dele? Por que o alimentamos mal? Por que vamos à academia de ginástica e fazemos malhação, vamos às ruas e fazemos jogging e footing, e por que damos tão pouco exercício ao cérebro, ou, muitas das vezes, sequer o exercitamos? Então, se não cuidamos do cérebro e se o cérebro somos nós, não estamos cuidando de nós...
A Ciência já concluiu: o melhor exercício para o cérebro é a leitura. E o melhor aparelho nessa academia é o livro.
Sou dos que acreditam que o Brasil está onde está porque lê pouco. Menos de dois livros por pessoa ao ano, e um desses livros é didático, portanto, obrigatório. Quase dezesseis vezes menor em área do que nosso país, a França lê quase quatro vezes mais (e olhe a lombada, a quantidade de páginas dos livros franceses!...). Esse país europeu destaca-se como pátria de cultura, a maior criadora, fomentadora e irradiadora de conceitos e idéias basilares das civilizações ocidentais. O território francês, sem a extensão, a variedade, as riquezas e as belezas naturais brasileiras, é insuperável, há um século e meio, como primeiro destino de visita e apreciação de pessoas de outros países.
O segredo disso?
Cultura — cujas bases, cujas fundações assentam-se sólida e inamovivelmente nas páginas dos livros.

* * *

De onde vem esse desapetite, essa falta de fome de leitura? Com fino humor, o crítico argentino Carmelo M. Bonet (falecido em 1977) escreveu que, para ser um escritor, haveria três alternativas: a genética — quando a pessoa dependeria de os pais serem inteligentes; o esforço pessoal — quando a pessoa dependeria de si mesma; ou a fé — quando a pessoa dependeria da vontade de Deus...
Não sei por que Carmelo Bonet não colocou o professor nessa lista da gênese da formação do escritor. Afinal, ali está ele, professor, artesão de saberes, emulador de mentes, fomentador de consciências, escultor a esculpir a massa (rósea, não cinzenta) de modelar que é o cérebro do jovem, do adolescente, da criança. Professor — modelo, exemplo, espelho.
Se o Brasil quiser ser uma pátria melhor, tem de ter mais e melhores leitores. E para ter mais e melhores leitores, temos de ter mais, muito mais e melhores professores. Professores-leitores.
No ato de ler, o leitor é, em igual tempo, objeto e sujeito: em um papel, é influenciado pelo conteúdo do texto-sujeito; no outro, e simultaneamente, o leitor é co-autor, reescrevendo mentalmente, complementando, valorando e validando o texto-objeto.

* * *

Tereza Bom-Fim viu, ouviu e sentiu aspectos dessa realidade. Dialogou com ela. Escreveu e escreve sobre ela. Conviveu com professoras de crianças. Foi e é professora — de professores e de crianças. E percebeu (é o que se depreende deste seu novo livro, Professor-leitor: de um olhar ingênuo a um olhar plural) que, por bonito que pareça, por rico que seja, não bastam a linguagem da vida e a leitura do mundo para se fazer um professor. Ao professor, a leitura de vida não é a única leitura devida.
A leitura paulo-freiriana do mundo é antecessora, mas não exclusiva — como o próprio educador reconhece. A leitura do mundo, ainda que antecedente, ainda que correlata e conseqüente, não exclui a leitura de livros mesmo. (Livros, estes mundos portáteis, de celulose e tinta, de substâncias e sentidos, universos em tamanho reduzido).
Em Professor-leitor, sua tese de doutorado, Tereza Bom-Fim continua a "saga" acadêmica que lhe coube documentar e contar, iniciada com O livro-de-imagem: um (pre)texto para contar histórias que também prefaciei. Se, em um livro-de-imagem, a pergunta é "O que se lê?", neste novo livro deve-se questionar: "Por que não se lê?" ou "Por que se lê pouco, se lê mal?"
Professor-leitor: de um olhar ingênuo a um olhar plural, por inusitado que pareça, trouxe-me à lembrança o aviso na hora da decolagem do avião: em caso de despressurização, não coloque imediatamente a máscara de oxigênio no menino ou menina ao lado; primeiro, ponha-a em si mesmo, inspire, energize-se... para, em seguida, aerar a criança. No caso das escolas brasileiras, em especial as da rede pública, sabe-se, os professores não estão com esse gás todo... Grande parte da qualidade dos professores depende da consciência e do esforço deles. Mas é preciso oxigenar mais nossos professores, para que eles possam atender aos olhares ingênuos e suplicantes à sua volta.
Um país se faz com pessoas e livros. Pessoas com livros.

* * *

Formal e conteudisticamente, o livro Professor-leitor: de um olhar ingênuo a um olhar plural reapresenta-nos a competência técnica e a sensibilidade humana da professora e pesquisadora atenta Tereza Bom-Fim. Ela não se presta a ser unicamente burocrata da academia, autora pura-e-seca de produções universitárias. Não; com Tereza Bom-Fim, há a sadia contaminação de umas passagens mais emocionadas e emocionantes aqui, de valores perdidos e achados literários acolá. Universidade com Humanidade.
Talvez porque, mulher, mãe e educadora, Tereza Bom-Fim saiba, mais que ninguém, o que é construir um ser — dentro e fora do útero... ou da mente. Que o mundo saiba (a)colher este novo filho e fruto de Tereza Bom-Fim.

Dobras da Leitura
Ano IX - N.º 57 - nov. 2008
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