A análise dos aspectos formais e métricos é tratada pela autora de maneira clara nesta obra
que introduz algumas "técnicas" para o estudo e a leitura de poemas, no que diz respeito aos ritmos,
aos sistemas de metrificação, à classficação de versos e estrofes, ao parentesco sonoro entre-palavras
e às principais figuras sonoras. Norma Goldstein sublinha, no capítulo de apresentação,
que o trabalho com a poesia exige atenção aos procedimentos de seleção e de combinação das palavras
que produzem diferentes graus de tensão e ambigüidade no interior do texto literário, considerando ainda que
embora seja possível isolar alguns aspectos de um poema, isto apenas se faz de modo didático,
artificial e provisório. Os sentidos buscados pela atividade interpretativa apenas se erguerão do papel
com um exercício de estabelecer relações entre diferentes estratos (ou níveis) de um poema. Aqui se começa
com os aspectos materiais do texto.
Eloí Elisabet Bocheco escreve sobre a vivência com a poesia na urdidura de vozes
que nunca se fecha, mas antes é abraço que se multiplica. Vai compilando-lendo e rememorando
poemas, a palavra da crítica e o depoimento de crianças — suas crianças, seus alunos —
explicando e fazendo-nos refletir a respeito de como a poesia pode apresentar o mundo
de uma janela nova e brincalhona, visto fora de seu "devido lugar". Tematiza o riso cúmplice
que brota das inversões da lógica convencional, através dos mecanismos do
non-sense,
enveredando-se depois pelos diálogos da poesia contemporânea com as matrizes
populares da tradição oral. Delicadeza e eficácia jamais faltam aos argumentos de Eloí,
professora, poeta e leitora carinhosa com os textos que soma à sua reflexão.
A poesia para Elias José está em toda parte, em toda arte revestida de força, música, beleza, sugestão...
e o livro, que era para ser apenas um depoimento, transforma-se em uma aula sobre cores, formas e
sons no estado de liberdade que o poeta concebe.
Elias José vasculha a bagagem semântica e emocional que as palavras carregam, enquanto caminha
sem o peso da teoria no intento de não fatigar seus leitores. E, viajando pelos capítulos (que, muitas
vezes, retomam títulos e trabalhos já publicados do autor), encontramos sugestões para chegar
à sala de aula, conhecendo e replicando os procedimentos mais caros ao poeta:
a desconstrução de uma palavra, encontrando nela outras palavras, a inversão de elementos
da frase, as possibilidades da pontuação, entre outros, sem esquecer de que "o ato de criar
e o ato de ler poesia são festas parecidas..."
Tocando a lira mito-poética da invenção, Gloria Kirinus responde sensivelmente qual a importância
da poesia para a criança e para restaurar as forças criativas do mundo e das palavras no cotidiano.
Dialogando sempre com educadores, seu texto-fruto de pesquisa e inspiração resgata desde as primeiras
manifestações da poesia que se engendram no universo infantil, preparando argumentos e convite para
uma necessária mudança da postura pedagógica. A autora re-cita caminhos e poesia para ser vivida,
palavra que lavra palavra, através do encadeamento de sugestões que promove
o reencontro da criança com o mundo lúdico, sonoro e fantástico a que tem direito.
capítulos "de" poesia
Pensando na distância entre os professores e as reflexões sobre poesia para crianças, Hélder Pinheiro organizou
um volume de artigos diversificados para compartilhar critérios estéticos, sugestões práticas de
como
trabalhar poemas em sala de aula e recortes temático-históricos da poesia infantil brasileira. Sério,
importante e interessante em todas as suas páginas, mas não posso deixar de destacar quatro dos oito capítulos
que integram o livro, iniciando com o painel-reflexão "Poemas para crianças e jovens", do próprio organizador,
pesando a profusão de obras publicadas e a busca da qualidade a partir de um conjunto de textos que chegam
à saturação de motivos e recursos; "Uma viagem ao universo infantil com Henriqueta Lisboa", de Ana Lúcia Maria
de Souza; "Em busca da surpresa e do humor", em que Vaneide Lima Silva nos transporta à uma síntese da obra de
José Paulo Paes; e "As várias danças da menina bailarina", de Maria Rejane Araújo Tito, estudando a tessitura
poética sobre um mesmo tema, a partir de Cecília Meireles.
No livro organizado por Ieda de Oliveira, há um excelente capítulo a respeito de poesia,
sobre o qual já escrevi anteriormente que
lépido e lúcido, Leo Cunha arrisca reflexões — das boas e leves, estratégico — ao recortar um assunto
tão próprio de seu fazer: “Poesia e humor para crianças”. Inicialmente, distingue semelhanças entre poetas
de olhar reflexivo e filosófico que expressam amabilidade, delicadeza e lirismo, para, então buscar em
outros textos uma tendência para o afastamento da concepção dominante sobre o que é poesia. O pêndulo
do lírico ao lúdico, adivinha humor no jogo das palavras, no jogo das idéias e na reinvenção do cotidiano
— qualidades para “o encantamento com a palavra e a partir da palavra”.
outras leituras
Caso hoje ministrasse um curso ou oficina sobre poesia para crianças e jovens,
não deixaria de levar na bagagem a referência a esses quatro livros,
alinhavando pressupostos para a leitura de textos.
O pequeno livro de Décio Pignatari
é uma intrigante aula, em linguagem veloz e acessível, sobre o que é a criação poética,
discutindo e demonstrando como funcionam os processos de seleção e de
combinação, as questões relativas ao eixo da similaridade x contigüidade, a função póetica da linguagem...
Ótima introdução aos conceitos-chave da teoria de Peirce, Pound e Jakobson ;-) e para aprender a apreciar (ou fazer)
poesia sem suspirar...
A coleção de ensaios
do poeta-crítico Octavio Paz e o livro do professor Alfredo Bosi são duas obras para uma leitura mais lenta
e densa sobre a caracterização da poesia, em detrimento da prosa, a gestão do tempo nos textos,
as irredutíveis distâncias entre o discurso (linguagem verbal) e a imagem, além de outros aspectos
da crítica literária.
Embora não contenha especificamente um estudo a respeito de poesia,
a contribuição de Italo Calvino é imprescindível para quem busca conhecimento e novas relações
com o texto literário. Suas propostas são, na verdade, valores que o
autor-crítico-leitor julga caros aos textos de força estética, em termos
de leveza, rapidez, exatidão, visibilidade e multiplicidade.
Caso você tenha outras sugestões de leitura e deseja compartilhá-las,
escreva um texto de dez linhas, aproximadamente, e envie através
do
formulário on-line.