elétrons &
o signo leitor
Peter O'Sagae
Dobras da Leitura
Sobre uma superfície metálica, acima do verniz da madeira, do acrílico, da casca que reluz entorno à maçã,
o brilho que vemos é um efeito de polimento, uma nuvem de elétrons atiçados. Que me permitam pensar agora
o brilho também como um efeito de polidez, uma discrição que distingue tal como a sanha
de Maria José Palo e Maria Rosa D. Oliveira, no livro A literatura infantil: voz de criança,
publicado em 1983, quarta edição recentemente lançada.
Porque tímidos ainda são os referenciais da crítica que buscam uma orientação de leitura para a literatura infantil
e juvenil pela lógica e jovialidade semiótica, a pequena obra apresenta-se bem pautada por uma fração de teoria
e pela prática de um novo olhar.
Em rápidas e notórias dez páginas, as autoras passam adiante do pisado caminho histórico que deu fomento
à literatura infantil, bem como a intencionalidade com que a pedagogia a revestiu e conformou as funções de moral
e bom proveito, para evocar uma justa revisão, não aplicada à literatura para crianças, mas ao próprio fazer
pedagógico que a ela se destinou. “Privilegiar o uso poético da informação é também pôr em uso uma nova forma
de pedagogia, que mais aprende do que ensina, atenta a cada modulação que a leitura pode descobrir por entre
o trançado do texto”, ponderam Palo e Duarte (2006: 14). Recuperar os gestos têxteis que tramaram o texto
híbrido de linguagens é a operação de bordadeiras em que se dedicam, a fim de conhecer os pontos e laçadas do
uso mais convencional da linguagem ao estético.
No girar dos signos, lembram as pequisadoras, o texto literário dá à percepção do leitor
três espécies de figuras que estruturam a informação no livro infantil:
as figuras sonoras, no balanço das frases, responsáveis pela pulsação rítmica do texto;
as figuras visuais que, resistindo à redução e à redundância com os aspectos da realidade extra-texto,
marcam o compasso das semelhanças e outras homologias estruturais; e
as figuras verbais, em especial, a metáfora, que deslinda analogias por conexões do significado,
e a paronomásia, que se constrói pela semelhança sensível da palavra, aproximando som, sentido e materialidade gráfica.
Contrastando assim com muitas outras abordagens, aqui se ocupa o objetivo de leitura
com a apresentação e a presentificação das formas literárias e o significado que despertam delas
ao leitor e, dialogicamente, retornam da criança à obra. Acontece, porém, que os desígnios e desejos da arte,
como sublinham Maria José e Maria Rosa, nem sempre encontraram o mesmo pouso no processo de revisão e de divulgação,
em termos da crítica: beleza, força e verdade (conceitos amplos vazados por tantos outros discursos),
no pensar e agir das autoras, são valores enredados por uma técnica e, concretamente codificados;
por isso, dispensam elas a contemplação em favor de uma ágil perspicácia.
São importantes os capítulos 3, sobre as transformações pelas quais passou o personagem na literatura infantil,
e 4, sobre o processo comunicativo e o uso da oralidade como padrão narrativo.
Os exemplos alocados pelas autoras apontam (sempre) para o gradiente (estético, porque ético)
de respeito à criança e de invenção de linguagem.
Compreendendo a natureza mutável dos signos, as pesquisadoras ampliam também a noção do campo literário
pertinente às obras endereçadas a crianças e jovens, inscrevendo novas fronteiras com a narrativa
gráfico-eletrônica, ao convocarem as primeiras incursões da literatura no suporte de videotexto.
Neste aspecto, o último capítulo do livro antecipa, em duas décadas, os estudos de literatura infantil multimídia
que só tomariam espaço nas universidades, com a entrada dos anos 2000.
Por todos os elétrons da sensibilidade, o brilho do signo leitor.
E, no fundo teórico de Literatura infantil: voz de criança, vemos trafegar um repertório afinado
pela estilística, ou Poética, em articulação com os procedimentos de close-reading —
tal particularidade talvez destoasse muitíssimo para a época em que foi publicado originalmente.