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o corpo e o desenho
das histórias digitais
Peter O'Sagae
Dobras da Leitura
Mais do que segredos e encantos revela Cléo Busatto,
em seu segundo livro sobre a arte de contar histórias.
Ao empreender sua travessia,
através da voz originária com os mitos arcaicos aos paradoxos da virtualidade,
ela nos põe em contato com os novos desafios e as fronteiras
que o mundo atual impõe para o contador de histórias. Cautelosa Cléo,
antes mesmo que possamos ceder à tentação da crença em uma representação idealizada ou arquetípica
do contador de histórias, a extinguir particularidades em uma imagem única, universal e etérea,
Busatto dá definição ao contorno de corpos dessemelhantes:
o contador tradicional,
que se entrega à atividade da narração nos momentos de ócio e lazer,
nos serões domésticos ao fim da lida e outros compromissos,
ou mesmo para acompanhar o trabalho monótono e afastar seu tédio,
como mostrou Walter Benjamin (1936: 197-221), e
o contador contemporâneo,
para quem a narração de histórias se planta como seu próprio trabalho,
uma experiência artística e econômica.
Vejamos que o primeiro se identifica com o mundo conhecido à sua volta
e retira significados do presente em que vive; o segundo emerge à sociedade
com uma profissão, vestido de cores, com fantasia de palhaço ou de princesa,
ou simplesmente vestido de si mesmo, trazendo consigo instrumentos, badulaques,
objetos, adereços musicais, simbólicos, plásticos, etc. Se o primeiro possui
raízes no lugar onde nasceu, o outro comporta-se quase sempre como o estrangeiro
visitante em escolas, bibliotecas, bares, festas, feiras, congressos, hospitais,
creches, asilos e abrigos de crianças, jovens e velhos, enfim, nos lugares em
que abre ou consegue abrir rodas para sua atuação. O contador de histórias contemporâneo
insere-se entre estranhos e ouvintes.
Distanciado, mas não-apartado do consumo urbano,
o contador tradicional de histórias abre uma roda à sua volta e, contrariamente,
insere os ouvintes que dele se aproximam, tão logo não lhe sejam mais estranhos...
O primeiro capítulo do livro A arte de contar histórias no século XXI fia as diferenças fixadas pelo tempo
em que permeia e persiste a oralidade das narrativas, cosendo o enredo da humanidade. De um modo sensível,
bastante apurado, Cléo Busatto busca pelos lugares das histórias contadas e investiga as medidas
que o conceito de perfomance assume na contemporaneidade. Há algo mais para pontuar a inquieta
diferença entre a cena da narração e o espetáculo cênico. Merece também destaque o relato de seu encontro
com Dona Ilva de Oliveira Ramos, uma contadora de histórias, de 68 anos, moradora em um pequeno sítio
do interior paranaense, em que tramas nada ingênuas envolvem a pesquisadora em um ambiente social de reservas
e negociações face-a-face com a tradição.
Imagens, ritmos e intenções são os fundamentos poéticos que Cléo Busatto elege,
como passarporte para o imaginário, dando continuidade à reflexão projetada em Contar e encantar: pequenos segredos da narrativa (Dobras da Leitura 16).
Principalmente, a respeito das imagens (imagens sonoras, imagens visuais, imagens corporais),
sua mirada toca a teoria do conhecimento, através de alguns séculos, expondo como o homem deixou
de aproximar vivências e sonhos para discernir seus limites, obrigando a analogia ceder à análise.
Por essas veredas, “o pensamento predominante deste início de século XXI, ainda se caracteriza
por um visão determinista e rasa”, alerta ela, lúcida, “que olha com desconfiança para o que sugere diversidade e para
o que propõe a aceitação das diferentes dimensões da realidade” (2006: 53) É, deste segundo capítulo,
que vamos encontrando as pistas necessárias para compreender
a complexa relação entre imagem e corpo:
que presença é essa do contador de histórias em nossa época?


Perfomance de uma contadora de histórias na era digital: um corpo que se multiplica.
Cléo Busatto narra a lenda de Naipi e Tarobá,
da tradição Caingangue, em seu mais recente trabalho em CD-rom:
Nos campos do Paiquerê.
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No interior do espaço narrativo, “a imagem corpo-ral antes de ser uma mímica da ação é um traço que preenche
o espaço, traz a forma, o contorno, tem peso, consistência, direção e dimensão”. Imagem-signo,
ou corpo-significação posto em movimento no horizonte da recepção dos ouvintes e videntes. Cléo evoca Jauss,
para quem a experiência estética deve valer-se da distância e da mudança do ponto de vista,
transcendendo a dimensão prática e intelectual do momento imediato.
Ao chegar à terceira parte de seu estudo, consciente da sincronicidade, ou seja,
de todos os tempos possíveis com o advento da velocidade pelas tecnologias de comunicação
e informação, Cléo Busatto propõe uma viagem às avessas pelos suportes da
escrita, aprisionando a oralidade humana. É assim que pode flagrar a materialidade
impalpável, leve, leve das mídias digitais, a par das variadas posturas que mantemos
para acessar, tangenciar e segurar as novas narrativas em nosso repertório de leituras,
em nosso repertório de sentidos. A pesquisadora trilha a fantasia que costura o mouse,
através de suas próprias experiências como uma contadora de histórias digitais, cuja voz
articula não apenas memória, mas uma configuração ilusória e binária. As imagens corporais
se restringem ao espaço exíguo da tela, adquirem novas medidas, apresentam-se comedidas.
No entanto, o corpo-imagem também é outro, processado por mecânicas e dinâmicas impossíveis
ao contato vivo com uma platéia. Se a audiência diminui à privacidade, com tendências ao
isolamento, é preciso considerar como as palavras, gestos, sons e a própria imagem da contadora podem
filtrar-se por um ritmo de framentação. Mas, na coreografia virtual, como baila
a imaginação dos navegadores?
Cléo Busatto nomeia suas últimas contribuições de “divagações” e, dados os cenários móveis da exploração,
só mesmo é possível um flutuar entre dúvidas e reflexão. Tempus perfectum ao pé do fogo,
às margens do rio, ao redor da cama, no sopro do ciberespaço... a oralidade materializa-se em
espaços, signos e desenhos peculiares rementendo às musas, filhas de Mnemósine.
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