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rodopios pela
leitura literária
Peter O'Sagae
Dobras da Leitura
Ler, como uma eterna brincadeira, extensão dos velhos quintais onde tudo é permitido:
ter um rinoceronte para fazer festa, passear com uma imensa begônia na lapela (de que cor,
de que cor é ela?). Imagine você. É com esta imagem de poeta, inspirada em Thiago de Mello,
que a incansável Eliane Debus abre as leis da leitura, no primeiro capítulo de
Festaria de brincança (Paulus, 2006) — um livro que reúne a série diversificada
dos textos que a pesquisadora produziu, ao longo dos últimos anos, enquanto corria congressos,
encontros e seminários pelo Brasil e Portugal afora. As leis de que trata, no entanto,
são menos sonho, mais feijão: ao tomar as proposições da LDB, a autora procura evidenciar
um novo caratér incorporado à Educação Infantil, derrubados que foram os laços
assistencialistas com a criança pequena, nesta fase de sua formação.
Em defesa da leitura literária na Educação Infantil,
Eliane Debus põe foco sobre duas atitudes correntes:
a primeira, que transfere ao livro de literatura os deveres com a alfabetização
e os conteúdos programáticos do currículo,
e uma segunda forma de trabalho vincada pelo ato de contar histórias,
em atividades marcadas pela oralidade e bem pouco íntimas
da linguagem escrita, “esquecendo-se completamente da mediação
pelo objeto livro”.
Não obstante, ambas as atitudes mesclam-se sob diferentes formas de
encaminhamento didático raramente questionadas. Mas ainda há outras pautas
para fazer pensar, como a concepção de infância em nossos dias,
a leitura desapropriada do espaço familiar,
a institucionalização das oportunidades de contato com o livro,
a exigência de “gestos ternurizantes” para a recepção literária.
Então, Eliane busca abrigo contra o desassossego nas memórias de leitura
de
Monteiro Lobato, Drummond, Clarice Lispector, Proust,
Bartolomeu Campos de Queirós, Bojunga...
A festaria, então, começa a ser pronunciada, com
uma exposição sobre as possibilidades materiais do livro para crianças.
Até chegar à leitura do texto, o leitor relaciona-se sensorialmente com o suporte-livro,
através de estímulos que alimentam, de significado, sua imaginação:
estímulos visuais, táteis, sonoros, olfativos (e até mesmo gustativos, considerando-se
os bem pequeninos, ou o dedo molhado na língua para virar as páginas).
O tema já fora proposto em um dos artigos da autora, publicado em
O Balainho (edição n.10)
e, agora, é ampliado com breves referências teóricas e a experiência na construção
de livros com materiais alternativos pelas alunas do Centro de Ciências da Educação/UFSC,
ligadas ao Núcleo de Estudos de 0 a 6 anos.
Debus estima a iniciação literária da criança, ouvindo os primeiros acalantos, brincos e parlendas,
passando à socialização cantando rodas — e firma, assim, a afinidade infantil para com a poesia.
Ao mesmo tempo, fadas e bruxas abrem o caminho para as seqüências narrativas de contos,
pequenos relatos e fábulas. Nas páginas mais centrais
e ao lado de Sherazade, Dona Benta, Tia Nastácia e Velha Totônia,
Eliane retoma a questão: ler ou contar histórias às crianças?
Ora, como foram escritos em diversos momentos de sua pesquisa e docência,
os artigos que compõem os capítulos desta brincança, revelam uma contradição.
No início do livro, a autora apontava o distanciamento da criança em relação ao livro,
durante as sessões de histórias contadas oralmente; no entanto, ela deixa outra idéia
a respeito de seu posicionamento crítico: qualquer forma escolhida pelas
professoras, seja leitura ou narração, torna-se válida para as práticas de leitura literária
na Educação Infantil. É assim que são relacionados rapidamente os
diversos recursos pedagógicos para transmitir uma narrativa às crianças
— e sua memória não esquece, nem esconde nem mesmo o flanelógrafo, ou o cartaz de pregas
de décadas passadas.
Antenada com as preocupações atuais sobre a escolha de textos,
frente à grande oferta do mercado livreiro,
a pesquisadora incansável, alcunha que lhe deu Regina Zilberman,
debruça-se sobre a análise de catálogos de dez editoras brasileiras.
Antes, porém, enumera o que pensam e divulgam diferentes autores, críticos e instituições ligadas ao livro,
quanto aos critérios de indicação e as concepções a respeito do amadurecimento intelectual,
afetivo e criativo do leitor-criança. Constata, imersa num universo de múltiplas
orientações, a necessidade de relativizarmos os critérios de indicação, junto ao leitor real
e próximo que desejamos formar.
Festaria de brincança dá a despedida com a sugestão da autora para a constituição
de um acervo de literatura infantil na escola, listando obras de ficção, livros de imagem,
livros-brinquedos, contos, recontos, textos de autores contemporâneos...
Relaciona ainda sítios na Internet para a consulta dos professores.
Eliane Debus, em intensos rodopios, festeja com o sonho,
a coragem de jamais desistir e o conhecimento de suas descobertas.
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