Letramento literário: teoria e prática

de
Rildo Cosson

Contexto, 2006
133p.


Cumplicidade entre
mediador, texto e leitor



Flávia Brocchetto Ramos
Professora no Programa de Pós-Graduação em Letras/UNISC e Departamento de Letras/UCS. Professora de disciplinas de Prática de Ensino de Literatura e de Literatura Infanto-juvenil.



Letramento Literário: teoria e prática surge com o propósito de contribuir para que a leitura literária aconteça de modo planejado na escola. A obra apresenta com clareza a função da literatura na vida do homem e mostra estratégias e formas para se ensinar literatura. Essa proposta vem sendo paulatinamente construída pelo autor que é doutor em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, foi professor de Literatura da Universidade Federal do Acre, da Universidade Federal de Pelotas e professor de Metodologia do Ensino de Língua Portuguesa da Universidade Federal de Minas Gerais. Cosson também atuou como pesquisador do Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita (CEALE), da UFMG. Trata-se, portanto, de um pesquisador inquieto que tenta buscar respostas para problemas que se apresentam na sociedade, em especial, no campo da leitura.
Talvez esse seja o fato que leva Rildo a aparentemente se desviar do grande rio que é a literatura e suas teorias e resolva adentrar num dos seus afluentes, que são os estudos sobre o ato de ler, mais especificamente, sobre as relações inóspitas da escola com a leitura literária. Frente a esse quadro e a partir de suas ações docentes, produz e publica este livro, através do qual contribui para a inserção da leitura da literatura nos ambientes escolares. O autor já tem demonstrado essa preocupação em cursos, conferências e publicações, dentre as quais destacamos Leitura literária: a mediação escolar (2004), organizada em conjunto com a professora Graça Paulino e publicado pela Editora da UFMG.
O autor, assumindo uma postura de cumplicidade com seus ex-alunos e possíveis leitores, discute a forma como se ensina literatura na escola e propondo alternativas. Enfoca o texto literário priorizando a construção de sentido que os leitores podem efetuar a partir do lido entre outros temas que freqüentemente são discutidos tanto nas escolas como nos congressos.
Para entender a proposta de Cosson, é preciso retomar o sentido do termo letramento, cunhado por Magda Soares. O sujeito letrado não apenas lê ou escreve para cumprir uma exigência escolar, pelo contrário, interage com o meio social onde vive, valendo-se da aprendizagem da leitura e da escrita. Nesse sentido, o letramento literário possibilita ao aluno/leitor, valendo-se da leitura do texto literário, interagir com o meio social onde vive. O aluno que vive em estado de letramento literário usaria socialmente a prática da leitura literária para conhecer a si mesmo e ao universo do qual faz parte.
Na obra em questão, o autor, além de nos explicar como a literatura é enfocada na escola e como poderia ser potencializadora na constituição do homem, avança propondo caminhos para a efetivação de uma prática docente da leitura da literatura, que vise à implementação do letramento literário no ensino fundamental e no ensino médio. As reflexões combinam as vivências do autor e de alunos e de professores com princípios teóricos que sustentam as aulas de literatura.
Cosson inicia seu texto afirmando que a leitura literária possui um papel humanizador e que, atualmente, a literatura enfrenta um problema de rejeição nas escolas, pois vivemos um momento em que o humano parece não interessar. Por ignorar a função humanizadora da literatura, a escola prioriza, por exemplo, a história da literatura e as características de cada período literário ou suprime a palavra artística do currículo. Para Cosson, essas e outras formas errôneas de se enfocar a literatura em sala de aula demonstram que “estamos diante da falência do ensino de literatura”. A leitura literária passa a ser significativa, quando o leitor consegue sentir e expressar os sentidos do texto. Ele afirma ainda que os clássicos não devem ser reverenciados e vistos apenas como objetos de adoração. Bem instrumentalizado, o aluno será capaz de explorá-los, e, ao contrário de que se pensa, a análise literária longe de quebrar a aura da obra, capacita o aluno no processo de comunicação com o texto, pois convida o leitor a penetrar na trama, fazendo com que se instaure o processo de interação texto-leitor.
O autor ressalta que a seleção de textos é um momento fundamental para a efetivação do letramento literário e pontua que são inúmeras as direções que determinam essa seleção, passando desde obras canônicas que transcendem o tempo e o espaço e carregam uma herança cultural, indo para o contemporâneo com obras que as editoras põem nas mãos dos docentes.
Após apresentar fundamentos para a vivência da literatura na escola, no primeiro capítulo, denominado “Os pressupostos”, no segundo capítulo, “As práticas”, o autor enfoca estratégias para o ensino de literatura, ressaltando a necessidade de uma sistematização. Sugere dois caminhos para implementar a literatura na escola, denominados de seqüência básica e expandida. A primeira é formada por quatro passos: a motivação, que prepara “o aluno para entrar no texto”; a introdução, que proporciona a apresentação da obra e do autor, como também o contato com informações sobre o texto oriundas de orelhas, resenhas e outros; a leitura aparece como a terceira etapa desta seqüência - defende que a leitura precisa de um acompanhamento do professor, o qual organiza “intervalos” que funcionam como momento de exposição das dificuldades de leitura dos alunos e de diálogo com outros textos; a interpretação, quarta etapa, se divide em momento interior, essencialmente, introspectiva e que consiste em acompanhar o processo de decifração do texto e o momento exterior que constitui o ato de construção de sentido no qual ocorre a concretização do texto, que pode ser entendida como registro da obra. Tal registro implica que o texto afeta o leitor, o qual pode até indicá-lo a outras pessoas.
Cosson exemplifica a seqüência expandida, através de uma proposta de leitura, construída com O cortiço, de Aluísio Azevedo. Ressalta que na primeira interpretação ocorre a contextualização da obra a partir de aspectos teóricos, históricos, estilísticos, poéticos, críticos, presentificadores e temáticos, conforme estudos de Maingueneau. A segunda interpretação tem por objetivo tanto uma leitura aprofundada de um dos aspectos da obra anteriormente enfocado e o compartilhamento da leitura, como a expansão que relaciona a obra em questão a outros textos, evidenciando a intertextualidade como uma característica da literatura.
Para finalizar, Cosson ressalta que, ao final da vivência de uma seqüência organizada visando o letramento literário, o aluno pode ser exposto a um processo de avaliação, o qual deve ser um diagnóstico das suas aprendizagens e explicitar uma visão geral dos resultados alcançados. A avaliação não pode ser um instrumento de imposição da interpretação do professor, nem limitar os alunos no processo de letramento literário. O autor ainda acrescenta algumas técnicas que podem ser aplicadas em projetos de leitura da literatura.
A obra é recomendada, principalmente, para alunos de graduação e de pós-graduação, em especial, de cursos de licenciatura e para professores e dinamizadores de bibliotecas. Pela clareza e seriedade da exposição do autor, recheada por exemplos oriundos da docência, o livro contribui positivamente para aqueles que atuam ou atuarão como mediadores de leitura literária, como mais um subsídio a colaborar em possíveis aplicações didáticas a partir dos pressupostos sugeridos. Ressaltamos também que, sendo o professor um mediador entre o conhecimento e o aluno, ele é, em parte, responsável pela capacidade de leitura e de interpretação de seus alunos. Por isso, é importante que o docente saiba organizar aulas de literatura, tornando-as produtivas e prazerosas, pois só assim terá instrumentalizado o aluno para viver em estado de letramento literário e, dessa forma, encontrar na literatura seu verdadeiro sentido, que vai além do deciframento do texto, mas alcança a leitura do mundo e de si mesmo.

Dobras da Leitura
Ano VIII - N.º 42 - fev. 2007
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