Maria Teresa G. Pereira e Benedito Antunes, orgs.

Trança de histórias:
a crição literária de
Ana Maria Machado


Editora UNESP & Núcleo Editorial Proleitura, 2004


Trança de histórias:
a crição literária de
Ana Maria Machado



* Apresentação extraída do livro, sob autorização
da Associação Núcleo Editorial Proleitura - ANEP
para a revista Dobras da Leitura/Vitrine de Estudos



Nas letras brasileiras, o nome de Ana Maria Machado comporta uma aparente contradição. Ao folhear as histórias e os dicionários mais conhecidos de literatura brasileira, não encontramos facilmente referências à sua obra. Por outro lado, percorrendo os sites de busca da internet, verificamos que há disponível cerca de uma centena de livros seus nas livrarias. Pode-se sempre alegar que sua literatura não é erudita ou pertence a um gênero ou sub-gênero considerado menor, voltado para o mercado, mas não se pode ignorar o fenômeno. Afinal, trata-se de uma escritora muito lida por crianças, jovens e adultos e, ao mesmo tempo, reconhecida tanto pela crítica especializada quanto por entidades nacionais e internacionais do mundo das letras. Recordem-se, a propósito, o prêmio Hans Christian Andersen, que lhe foi concedido em 2000, e o recente ingresso na Academia Brasileira de Letras.
Por tudo isso, acreditamos que a escritora merece ser cada vez mais lida e discutida. É o que se propõe neste livro. Mais do que uma homenagem, trata-se de um conjunto de dez estudos que procura apresentar sua obra sob diferentes aspectos, contemplando tanto a produção voltada para o público adulto quanto a conhecida como infantil e juvenil. São artigos, elaborados não casualmente por nove mulheres e um homem, configurando o que Maria Teresa Gonçalves Pereira, uma das autoras e organizadora do volume, considerou “uma trança de gente que ‘leu’ Ana com outros olhos”, servindo-se de uma expressão adaptada do livro Bisa Bia, Bisa Bel, que parece referir-se a um traço presente em toda a obra de Ana Maria Machado, tanto pela concepção de linguagem literária quanto pelo sentimento solidário de humanização do leitor.
A mesma expressão levou outra autora, Maria Zaira Turchi, a falar em “trança de histórias” para caracterizar um dos procedimentos narrativos da escritora. Esse nos parece um título adequado para os estudos aqui reunidos, que de diferentes mas complementares perspectivas procuram dialogar com Ana Maria, emprestando ao título um sentido amplo, de diálogos temporais, consciência histórica, intertextualidade, fazer literário. Quanto à predominância absoluta de mulheres, cabe retomar o que Marisa Lajolo observa em seu texto: Ana Maria Machado circula num universo em que “é elevado o número de mulheres”. São escritoras de literatura infantil, professoras, bibliotecárias e, acrescentaríamos, estudiosas do assunto.
O leitor encontrará no livro desde uma abordagem ampla da obra da escritora, numa espécie de sobrevôo por seus diversos e variados títulos, até a análise detalhada de alguns dos mais conhecidos, como Bisa Bia, Bisa Bel e Bem do seu tamanho, passando pela sua produção não-literária, que estabelece uma relação iluminadora com a criação propriamente ficcional. Inicia-se com a reflexão teórica, encetada por Marisa Lajolo e Eliana Yunes, que lança luz sobre a possível contradição apontada no início deste texto. Marisa reflete sobre as relações entre o sistema literário brasileiro e a literatura infantil, chamando a atenção para o papel de Ana Maria como seguidora da melhor tradição literária brasileira para o público infantil, representada pela obra de Monteiro Lobato. Eliana, por sua vez, comenta os livros de ensaios da escritora para compreender seu amor pela literatura. Sugere, de forma instigante, uma aproximação entre seus textos de ensaio e a produção ficcional a partir do diálogo que a própria escritora estabelece com seus autores favoritos.
Considera-se a literatura de Ana Maria Machado testemunha de uma época, o que não quer dizer que seja neutra; ela toma partido pela igualdade, pela democratização, pela formação crítica do leitor. Aspectos dessas questões são abordados especialmente por llma Socorro Gonçalves Vieira e Maria Zaira Turchi. Ilma estabelece relações entre a literatura e a história, valorizando a discussão pós-moderna da “metaficção historiográfica” como recurso para a descentralização do sujeito narrativo. Zaira aborda a ficção histórica, entendendo, na perspectiva da escritora, a literatura como forma de conhecimento. Considera o diálogo entre a obra e o leitor, por meio da metalinguagem, como a ponte para a reflexão sobre a existência histórica do ser humano, levando o leitor a enxergar mais longe, sem didatismos, numa espécie de tomada de consciência pela modalidade estética.
Embora abordem aspectos presentes também em outras leituras, o trabalho de Neuza Ceciliato de Carvalho dedica-se a uma análise aprofundada do sentido de Bisa Bia, Bisa Bel. Além de fazer uma apresentação geral da escritora, discute a natureza emancipatória de sua obra ao configurar, no universo infantil, a consciência da historicidade. Da mesma forma, Ricardo Benevides aborda o “propósito de fazer da literatura uma maneira de brigar por uma sociedade mais democrática”, analisando a questão da intertextualidade. Ao dialogar com os clássicos, Ana Maria leva seus leitores a diversos questionamentos.
Numa linha um pouco diferente, Alice Áurea Penteado Martha trata da representação do jovem. Destaca as narrativas de formação, nas quais analisa, pelo ângulo do narrador, das personagens e da própria construção lingüística, a questão da humanização do adolescente pelas soluções de linguagem. Vera Maria Tietzmann Silva, por sua vez, percorre várias obras da escritora, estabelecendo um sugestivo panorama de sua produção literária a partir de temas ligados ao vôo. Enfatiza seu valor e o merecido prêmio Hans Christian Andersen para uma obra que testemunha uma época por meio da imaginação e do jogo literário.
Por fim, o leitor encontrará os estudos dedicados mais diretamente a questões lingüísticas e de técnica literária. Maria Teresa Gonçalves Pereira explora os recursos lingüístico-expressivos na obra ficcional de Ana Maria Machado, enumerando e analisando diversas ocorrências, enfatizando o caráter emancipador da linguagem, no seu peculiar viés lúdico. Anete Mariza Torres Di Gregorio complementa essa abordagem ao realçar o processo de adjetivação no texto da escritora, observando a criação de inusitadas metáforas.
Pode-se dizer, em conclusão, que os estudos aqui entrançados correspondem perfeitamente ao objetivo de destacar a atualidade e a importância de Ana Maria Machado. Tanto pela qualidade literária, materializada no plano lingüístico e temático, quanto pela repercussão e destacado papel na formação de leitores críticos, atentos aos meandros da linguagem literária, é oportuna a publicação destes criteriosos e envolventes estudos. Uma justa leitura de uma escritora que, na esteira de Monteiro Lobato, revela profundo respeito pelo leitor de qualquer idade, ao mesmo tempo em que se sintoniza com as questões cruciais de seu tempo.

Maria Teresa Gonçalves Pereira
Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ)

Benedito Antunes
Universidade Estadual Paulista
Júlio de Mesquita Filho (UNESP)

Dobras da Leitura
Ano III - N.º 41 - jan. 2007
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