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viagens para colher livros
Peter O'Sagae
Dobras da Leitura
Há tanto tempo, a metáfora da viagem fascina verdadeiramente os leitores! Criança ou adulto,
ninguém se encabula quando deseja expressar como se sentiu transportado para outras épocas,
em lugares distantes admirados ou inimagináveis, recordando com ternura e entusiasmo os itinerários
que cumpriram. Ler é assim e sempre viajar rumo a uma história dentro de um livro. Existem também
outros percursos realizados por leitores mais aptos a desdobrar-se em viagens por entre livros,
constituindo um segundo tipo de experiência — e uma história de leituras:
desta sorte de magia e incursão, pouco a pouco, os souvenires vão se materializando e espalhando-se
por um canto especial que chamamos nossa biblioteca — que pode residir apenas ou inicialmente em uma estante,
ir tomando lugares favoritos, assentos não determinados, outros móveis, demais cômodos da casa... Ora,
sem perder o encanto da viagem do primeiro tipo, Marta Morais da Costa desenha paisagens e reflexões
nas páginas do livro Mapa do mundo: crônicas sobre leitura (co-edição Editora da PUC-Rio e Leitura, 2006),
que resulta de uma coletânea-escritura de textos publicados dominicalmente, a partir de 2004, no jornal
O Estado do Paraná.
Como dita a própria etimologia, a forma e a função da crônica são perpassadas por uma noção de
tempo, por uma presença histórica e por um sentimento que nos ajuda a estabelecer a dimensão dos
fatos, coisas e pessoas à nossa volta. Assim, uma série de crônicas sobre livros só poderia
ajudar-nos a compreender a sociedade de leitura em que vivemos, seus valores éticos e estéticos,
os dilemas entre conceito e moral, suas preferências e modos de esquecimento. As crônicas de
Marta Morais da Costa entregam-se a nós como cenas-pensamentos dos muitos episódios que vivemos,
ou somente lemos contar, em uma comunidade globalmente letrada: as cores locais excedem o limite
imposto pela geografia mais familiar.
Cintilando perplexidades, cada crônica traz o adensamento de um instante qualquer,
envolvendo sempre o livro e outros objetos passíveis de leitura. A autora aproveita-se de eventos
corriqueiros, como as publicações mais vulgares da banca de jornal, a pergunta sem chão de algum aluno,
entreveros na sala de professores, a vontade à toa de evadir-se, e então delibera o olhar
para uma questão necessária e fecundante de idéias. Sem constrangimento ou concessão,
Marta Morais da Costa sustenta argumentos com ternura e coragem, deixando claras suas afinidades
e bases teóricas:
«Entre professores e demais agentes de leitura, persiste uma polêmica. Uns consideram que
as pessoas devem ler apenas os bons autores, ou seja, aqueles que a história e os leitores especializados
rotularam como de alta qualidade, os que compõem o cânone literário. Outros acreditam que as pessoas devem
se manter lendo continuamente, não importa a qualidade estética e/ou humana dos textos. No segundo caso,
se o leitor não consegue ler Graciliano Ramos, qualquer livro de auto-ajuda pode substituí-lo, desde que não
se interrompa o decantado hábito de leitura. (Hábito é palavra contaminada pelo automatismo, exatamente
a atitude combatida pelas obras que produzem sentido permanente no leitor.).» (p. 54).
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Desenhando um mundo e um mapa, a autora recupera o plural dos imaginários. Muitas vezes, veremos como os
rastros se fizeram marcar na praia da infância que os anos de estudo afastou, mas não fizeram esquecer.
E o tempo do relato amadurece lembranças, vagamundeando campos. Um olhar especial, em pelo menos
dezessete crônicas, é devotado aos escritores e à literatura para crianças e jovens leitores. Ela discorrerá
(ou correrá juntamente) com as refinadas raízes populares da obra de Angela Lago, a intertextualidade
de Ana Maria Machado, os teares de Marina Colasanti, e ainda: Lygia Bojunga, Monteiro Lobato, Ziraldo,
Carroll, Andersen, Guimarães Rosa, Eleanor H. Porter e sua Polyanna, James M. Barrie e seu Peter Pan,
entre outros. Harry Potter? Sim, ele também integra o roteiro de leitura de nossos dias...
O livro Mapa do mundo é arranjado em quatro segmentos temáticos, pontos cardeais para os assuntos
que tocam a escritura e as preocupações da autora, a saber: Livro | Leitores, Cidadania | Ética,
Ensino e, por fim, Linguagem. Afinação entre título e organização geral das crônicas. Bem a propósito,
o prefácio abre-se sob o nome "Rosa-dos-ventos", em que Eliane Yunes dá seu testemunho sobre a perspicaz
e apaixonada leitora que é Marta Morais da Costa, além de assegurar aos leitores o direito à invenção de
próprio destino, em uma rota aleatória a ser iniciada com a eleição desta ou daquela crônica a partir do sumário.
Na promessa de uma feliz jornada, anos de leitura e magistério, metáforas em trânsito, sabedoria, beleza, sujeitos,
a música de cantos e contos na voz das mulheres, entre águas e margens, entre letras e lágrimas.
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