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as três faces de Anna
Peter O'Sagae
Dobras da Leitura
Muitos leitores e pesquisadores de literatura são movidos pela curiosidade
de conhecer e saber como se erguem os universos de ficção no trabalho particular dos escritores.
Para responder a essa inquietação e outras mais, Anna Claudia Ramos se debruçou sobre
diversas obras de referência teórica e sobre os livros de ficção da escritora Ana Maria Machado,
durante os anos de seu Mestrado. E a dissertação, apresentada ao programa de Ciência da Literatura e Poética,
da UFRJ, agora transforma-se em livro.
Antes mesmo de adentrarmos Nos bastidores do imaginário (DCL, 2006),
somos convidados a compartilhar de uma entrevista de Ana Maria Machado por Anna Claudia Ramos.
Pairam, no ar, as principais preocupações que nortearam sua pesquisa sobre o mundo imaginário,
o sonho, tão cheio de lógica e verdades, a ação do pensamento criador,
as fontes e os limites da inspiração literária. Trata-se de uma conversa entre quem já está
muito bem habituado a criar realidades fantasiosas, com sua gama de possibilidades e outras vivências
não-tolhidas pelo cotidiano imediato de cada um de nós. Mas, como se trata de uma transcrição,
podemos nos sentir alheios aos implícitos daquela situação e querer saber mais,
descobrir as informações pressupostas além de nosso horizonte de recepção.
Além deste prólogo, o trabalho apresenta três grandes segmentos temáticos.
Na primeira parte, Anna Claudia entrelaça sua própria memória afetiva com reflexões sobre o prazer,
os primeiros jogos e a satisfação plena que permeia o devaneio em vôos imaginativos,
durante a infância. No texto, muitas vezes, a autora opõe imaginação e realidade,
ao mostrar zelo e carinho pelas “aventuras totalmente livres do peso da realidade”.
Sim, a autora desobriga-se da pluralidade de representações que o próprio real possui, segundo
diversas outras linhas de investigação a respeito dos sujeitos e as visões da pós-modernidade.
O que Anna Claudia deseja é seguir ao coração de outro debate: a necessidade do contínuo brincar,
criar e recriar mundos possíveis que une a todos, ao mesmo tempo, que faz espelhar a experiência
da criança na atividade estética do escritor.
Em um segundo momento, a autora e pesquisadora concatena três discussões que envolvem os processos criativos
da literatura infantil e juvenil brasileira. Inicialmente, resgata a polêmica em que muitos já se enveredaram
sobre a natureza, a função e a linguagem dos textos endereçados ao público de jovens e crianças,
que dão margem a uma vasta produção alicerçada nas expectativas dos próprios leitores.
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Nesse viés, a autora confirma as especificidades do texto pautadas pelo receptor
e por um ‘contrato de comunicação’ que o autor deve estabelecer com ele. A partir de então,
Anna Claudia passa a distinguir o que é um projeto literário, confrontando-o com os diversos
enquadramentos pedagógicos e com uma produção não-literária que falseia o fazer e a recepção do
artístico ficcional. Aborda, assim, o interesse das editoras orientadas para o mercado escolar,
construindo catálogos de acordo com a capacidade de adoção e venda dos livros, em detrimento da livre criação.
No entanto, a livre criação não está isenta de regras. Anna Claudia Ramos enumera as categorias que balizam
a construção da narrativa literária — desde a idéia inicial da história, pesquisa, o tratamento, estrutura,
os personagens, foco narrativo, a técnica, ritmo, a adequação da linguagem, pontuação e estilo — revelando
o conhecimento conquistado em seu percurso de autora e diversas descobertas que as oficinas de criação,
dirigidas por ela, lhe possibilitou.
A última parte do trabalho abre um caleidoscópio de leituras a partir de textos da escritora Ana Maria Machado.
Juntamente ao resumo de cada uma delas, Anna Claudia mescla seus comentários, em uma leitura autoral compartilhada,
apropriando-se tanto de vozes ficcionais, quanto teóricas.
Busca assim evidenciar as regras do jogo literário
que garantem a construção de mundos imaginários, onde as personagens e os leitores possam, de fato, morar.
À leitura de De olho nas penas (1981), interpõem-se vozes de Eco e Freud;
as reflexões de Calvino permitem um olhar sobre Bisa Bia, Bisa Bel (1982);
Nietzche inspira uma análise de Raul da ferrugem azul (1979) e, em vôo solo e sereno,
Anna Claudia lança-se sobre O canto da praça (1985). Do conjunto de obras selecionadas
(exceção feita pela história do menino que descobriu manchas invisíveis
em sua pele), Anna Claudia envereda-se por narrativas de tramas não lineares, cujos enlaces espácio-temporais
abrem-se à multiplicidade, articulando passado, presente e futuro, em arranjos que caminham pela sobreposição
de planos, do enredamento mágico a efabulação intrincada de recortes, avanços e recuos.
Adentramos os bastidores da criação sob três diferentes prismas, ou três faces de Anna:
a pesquisadora à ronda de um leif-motiv para suas alegrias e inquietações,
a escritora que deslinda certos mecanismos do jogo criativo e
a leitora em diálogo com as obras de Ana Maria Machado. Nestes cenários que se descortinam,
a escolha de Anna Claudia Ramos por um registro pessoal dá lastro de sua ousadia
e sua criatividade, um estilo todo seu, associado às emoções que envolvem descobertas e certezas.
Sua linguagem é acessível, reiterativa e, muitas vezes, faz intenso intercâmbio com a linguagem oral,
visando dar relevo a uma idéia — sim, o seu propósito é abrir um diálogo de natureza mais íntima,
quer consigo mesma, quer com os textos de Ana Maria, ou com o leitor.
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