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Ieda de Oliveira, org.

O que é qualidade em literatura infantil
e juvenil? Com a palavra, o escritor

Co-autores: Anna Claudia Ramos, Bartolomeu Campos de Queirós,
Carlos Augusto Nazareth, Celso Sisto, Flávio Carneiro, Gustavo Bernardo, Leo Cunha,
Luiz Antonio Aguiar, Ricardo Azevedo e Rogério Andrade Barbosa.

Na parte final do livro,
Alice Vieira, Ana Maria Machado, Lygia Bojunga, Marina Colasanti, Pedro Bandeira,
Rosa Amanda Strauz e Tatiana Belinky (depoimentos).

DCL, 2004
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porque perguntar é preciso
Peter O'Sagae
Dobras da Leitura
Muitas vezes, desafiei a lógica da sala de aula, logo de início à disciplina de literatura infantil, ao propor resposta nenhuma às perguntas habituais sobre o que é, afinal, literatura infantil, como reconhecer e escolher os textos para cada faixa etária, alunos, sobrinhos, filhos de minhas alunas nos cursos de Letras e de Pedagogia. Mesmo correndo o risco imediato de perder a atenção (e o jogo que é esse processo de aprendizagem), nos quarenta minutos da primeira aula, dava de ombros e confessava os anos que tenho lido e pensado sobre esses assuntos, sem chegar a alguma conclusão. Nada mais frustrante para quem ali estava com a ansiedade por uma resposta pronta, fechada e certeira... Eu só sabia fazer o convite para tentarmos descobrir e, com sorte, no final de dezesseis semanas letivas, teríamos algo melhor formulado. Aceitavam? Nem sempre porque, já centenária, a literatura infantil e juvenil brasileira oferece um grande desafio —
e, não sem demora, as perguntas voltavam a emergir, na segunda, terceira, quinta, sétima semanas...
Compreendo hoje que a literatura infantil e juvenil é um conjunto de textos sem definição única onde se possa descansar a cabeça. Se acreditarmos que ela exista, então ela passa a existir em um determinado momento de recepção, e cada olhar a enxergará sob uma perspectiva diferenciada. Em outras palavras, cada vez que alguém pensa em literatura infantil e juvenil, ela se torna um novo objeto de investigação, crença ou descoberta. Por essa razão, um livro intitulado O que é qualidade em literatura infantil e juvenil? provoca curiosidade e fome de leitura e, sem demora, obrigo os olhos por esse cardápio de idéias que Ieda de Oliveira organizou (DCL, 2005), reunindo vozes em língua portuguesa que o Atlântico une e separa.
Porto que ninguém duvida, a literatura infantil e juvenil tem sua existência segura e assegurada por quem a produz — e isto já nos tranqüilizaria, oferecendo amparo para uma discussão conceitual, tão desejada, tão necessária, para formularmos critérios de inclusão (o que é e o que não é literatura infantil e juvenil) e avaliação (quais as suas qualidades imanentes).
Gustavo Bernardo, à entrada da série de artigos, nos fará abrir uma pálpebra para ver melhor o que é “A qualidade da invenção” — duvidar é o procedimento recomendado pelo autor. A ficcionalidade, no entanto, não nos cobra, nem nos cobre de desconfiança, ao colocar-se, em primeiro lugar, não como cópia da realidade, mas como uma representação sua, livre do compromisso com aquilo que se deseja como verdade(s). Se a ficção parece dar disfarces ao real, ela o faz de maneira honesta e avisando seu leitor de modo tal que ninguém irá sentir-se desconfortável por deixar-se iludir. Ou, como veremos mais à frente, com o outro olho: como o leitor assume uma nova identidade no enredamento literário.
Em “Aspectos instigantes da literatura infantil e juvenil”, Ricardo Azevedo confessa o caos na ordem do dia — e de suas próprias idéias. Quem disse que o assunto é simples? Quatro são os pontos essenciais de sua exposição: (1) as implicações do uso da literatura na escola e as marcas do texto literário; (2) a linguagem, o discurso e as tipologias textuais, em que submete a diversidade a duas categorias — dos textos utilitários e dos textos de ficção e poesia; (3) a existência e a eficácia de uma linguagem segmentada, “para crianças”, em contraponto a um processo de naturalização das divisões em faixas etárias; e, por fim (4), o emprego da ilustração nos livros e os graus de relação entre palavra e imagem.
Ieda de Oliveira condensa, no terceiro artigo, as bases teóricas que nortearam suas preocupações de pesquisadora e autora à proposta do presente livro. “Contrato de comunicação, projeto de comunicação e qualidade em literatura infantil e juvenil” apresenta uma das chaves, a partir de Charaudeau, para a resolução de um campo de enigmas sobre a criatividade de escrever para crianças, compreendendo o leitor como sujeito que se inscreve no texto “com limitações de léxico, de sintaxe e de visão de mundo”, para ela, reduzindo a margem de expressão do autor.
“A ficção falsa” é um ensaio de Flávio Carneiro à procura da louca da casa, a que chamamos imaginação, e concentra esforço e polêmica sobre a caracterização da literatura para crianças e jovens, dos tempos passados aos dias atuais — desde quando se destinava à transmissão de valores morais, normas e padrões de comportamento, lembrando a apropriação do fluxo ficcional narrativo para o controle e a manipulação ideológica, e o fenômeno editorial dos livros de auto-ajuda infantil. Em seu exercício de investigação, se não logra encontrar o lugar onde esconde-se a louca da casa, diz o autor, “que saibamos pelo menos evitar onde ela não está”.
Lépido e lúcido, Leo Cunha arrisca reflexões — das boas e leves, estratégico — ao recortar um assunto tão próprio de seu fazer: “Poesia e humor para crianças”. Inicialmente, distingue semelhanças entre poetas de olhar reflexivo e filosófico que expressam amabilidade, delicadeza e lirismo, para, então buscar em outros textos uma tendência para o afastamento da concepção dominante sobre o que é poesia. O pêndulo do lírico ao lúdico, adivinha humor no jogo das palavras, no jogo das idéias e na reinvenção do cotidiano — qualidades para “o encantamento com a palavra e a partir da palavra”.
Raramente, a literatura dramática participa dos compêndios de referência sobre literatura infantil e Carlos Augusto Nazareth ficou responsável por trazer o tema à ribalta, no artigo “O que é qualidade em teatro infantil?”. Com clareza e precisão, consegue sintetizar a história do teatro, sua passagem ao universo infantil, a função transformadora da arte, a rica construção de signos em ação — texto, ator, voz, corpo, música, cenário, figurino, luz!
Luiz Antonio Aguiar, autor e presidente da Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil — AEI-LIJ, contrapõe um decálogo de exigências, concessões e amarras do mercado editorial-escolar com a necessidade de expansão criativa do universo da literatura. No artigo “Uma literatura & seu leitor!”, provoca-nos a reflexão sobre os valores estéticos e humanos, os critérios, pesos e prumos, com que se nivelam a produção literária. A cada tempo, uma sentença — e virá inquietar o sonho: qual o clássico que hoje se escreve?
Encantamento é a palavra de ordem de Celso Sisto. “A pretexto de se escrever, publicar e ler bons textos” passeia pela discussão sobre a qualidade da literatura infantil e juvenil, seguindo o itinerário de quatro faces complementares em sua própria história de leitura: leitor, crítico, professor e escritor. O encantamento adensa-se como um núcleo e entram para sua órbita doses de imprevisibilidade, ritmo, coerência interna, o tratamento estético do suporte, o protagonismo criativo do leitor diante/exigido pelo texto.
Em “O futuro vem do passado”, Rogério Andrade Barbosa investe na formação que os textos operam, quando o leitor compreende e é tocado pela literatura. A qualidade está nas marcas indeléveis que os livros e as histórias nos deixam, configurando nossa cosmovisão e identidade.
“O jogo do faz-de-conta” é a outra margem onde Anna Claudia Ramos se encontra e encontra-se a si própria. Um jogo-espelhamento que lhe permite reviver a criança que foi para estabelecer o diálogo com as outras, suas leitoras. E é na inquietação da infância, da memória afetiva que é fonte, que ela encontra as qualidades que dizem respeito à literatura infantil e juvenil em marcha.
Encerrando o ciclo de artigos que o livro oferece, Bartolomeu Campos de Queirós demonstra sua generosidade em dividir com o leitor a responsabilidade de construir seu próprio índice de qualidade. Pois sabe, ele sabe — que somos seres de relação, incompletos por natureza — e a qualidade literária está na possibilidade de participação, no texto, para completar o que o autor apenas principiou dizer. Não poderia ser outro, Bartolomeu ou título, a não ser “Leitura, um diálogo subjetivo”.
São onze autores e um segredo ;-) em torno da qualidade em literatura infantil e juvenil. Certamente, ex-alunas reconhecerão, no rol desses textos, afinidades com as discussões que não levei adiante. Agora, elas em sala de aula precisam habituar-se a formular perguntas e desembaraçar respostas. Porque a descoberta, a crença e a investigação são um bem pessoal e intransferível. O importante é o encontro com a palavra literária e a metalinguagem de seus criadores. Mesmo para discordar, isso é: acordar.
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