o outro lado
de uma história só



Peter O'Sagae
Dobras da Leitura


Minha vida de leitor foi alimentada, nos meados de 1980, quando a biblioteca escolar foi aberta sob os cuidados de Dona Mena. Ela vinha de outra cidade e pareceu aos alunos que, sem sala de aula para ensinar, fora ali trancada para ter o que fazer. Pude conviver com sua figura clara, diligente, ordeira e sempre muito carinhosa. O espanto ficava mesmo por conta de chamar de biblioteca um espaço tão pequeno, pois havia meses que me habituara a freqüentar a Biblioteca Municipal, quilômetros longe e que a ida de ônibus já representava uma primeira aventura em si. Lá conheci por desculpa de uma pesquisa sobre o estranho ornitorrinco, mas voltei dezenas de vezes à procura do dicionário de Ruth Guimarães e outros livros de mitologia grega. Praticamente compus “outro” dicionário manuscrito e ilustrado com deuses, ninfas e heróis que vi nas páginas do livro amigo, protegido por capa dura em azul marinho, da Larousse Júnior que sempre sonhei possuir, da grande e velha Conhecer. Biblioteca, no meu imaginário de 11 anos, já era um espaço amplo, com muitas estantes intocáveis, mesas para pesquisa e silenciosa leitura, uma ante-sala para quem procura atualizar-se com jornais e revistas, a hemeroteca. Na escola, aquela sala, é verdade, tinha livros e também poderia ser uma biblioteca. Diferente, menor, mas uma biblioteca... E depois aprendi que além daquela porta verde, as horas passavam mais depressa, o espaço se expandia com as incursões aos mundos de papel e tinta.
Essas lembranças foram despertadas pelo relato de Cyana Leahy, A leitura e o leitor integral: lendo na biblioteca da escola (Autêntica, 2006), que dá voz ao outro lado de uma história antiga. Os cenários são outros. No interior do estado de São Paulo, em Marília, conversei sobre livros com Dona Mena, troquei impressões com colegas, aprendi algo do código de Dewey com as estagiárias da Unesp, Paula e Zery, conferi as novidades em primeira mão, vi os alunos mais pirralhos com seus passaportes de leitura — estive lá durante muito tempo, enquanto a biblioteca ganhava vida. E é exatamente sobre os desafios para a dinamização de espaços de leitura que se ocupa a autora, em três momentos distintos de prática, pesquisa e persistência que conduzem à reflexão amadurecida.
Na mesma época em que os livros informativos e literários começavam a constituir uma rotina de diálogo para mim, Leahy iniciou sua caminhada na biblioteca de uma pequena escola em um bairro semi-rural do Rio Janeiro, após um longo período de portas fechadas para os alunos. Ela descreve o processo de “abrir espaço” dentro do espaço, cuja função era servir de depósito para materiais velhos, obras mutiladas, enfeites desbotados, fantasias dos foliões de outros carnavais que os moradores do bairro ali confiavam à guarda, os materiais de limpeza e até mesmo os mantimentos da merenda escolar.
É completa a caracterização de um ambiente pouco acolhedor à leitura e à biblioteca, servindo o resgate para vermos que, infelizmente, algumas portas permanecem fechadas — no coração e na mentalidade das pessoas envolvidas com os cenários e a burocracia do ensino. Cyana Leahy consegue, no entanto, serenamente tecer sua crítica, historiando a escola, a apatia “acomodada entre as professoras” e, em relação aos alunos, “uma alternância entre a atitude de comando punitivo e a atitude amorosa e pseudoprotetora da ‘tia’” (pp.30-31). Outros tópicos importantes de sua atenção ligam-se à falta de disciplina, de respeito pelo aparato público e de coesão entre os grupos de crianças e jovens. Com a transformação que seu trabalho propôs naquele contexto (e nos propõe para a reflexão), a autora evidencia como uma biblioteca escolar percorre um caminho político, deixando de ser um campo neutro para adquirir um estatuto de “terreno perigoso”, onde é possível o aprendizado de ler vivendo e a contestação a partir da reflexão pessoal dos alunos. A autora compreende que a leitura exige adesões e mostra como o gosto e o hábito compartilhado de leituras estão na base de relações mais democráticas e justas.
A outra parte do livro é dedicada a duas retomadas da proposta de Dinamização da Leitura que, então, toma corpo de projeto e conta com uma equipe interdisciplinar da Universidade Federal Fluminense – UFF. Entre 1989 e 1991, a experiência é realizada no CIEP ‘Geraldo Reis’, no Gragoatá, e a partir de 1992, em uma Escola Estadual, de Itacaraí, bairros de Niterói. Os ambientes tornam-se outros: não é mais a pequena escola da periferia urbana, com seus alunos intimidados, divididos entre um cotidiano rural ou fechado em condomínios — em sua maioria, crianças e jovens matriculados no CIEP eram provenientes de duas favelas localizadas no centro de Niterói: são alunos mais agressivos e, de algum modo, mais independentes, mas não ajustados na relação série/faixa etária; por sua vez, a escola pública recebia alunos de origens bastante diferentes, incluindo os filhos de uma classe média empobrecida, egressos da rede particular, acostumados a uma vida de maior consumo de marcas, resultado em um complexo quadro de experiências e expectativas sócio-culturais.
Cyana Leahy registra igualmente as conquistas e os fracassos. À descrição de todos os processos, ela soma a narrativa de episódios acontecidos durante as sessões de leitura. De uma conversa inicial com as classes, à proposta de um título e ao encaminhamento de atividades pós-leitura, nada parece escapar dos objetivos de um trabalho pautado para o desenvolvimento cognitivo, psicológico e social de crianças e jovens leitores.
Dobras da Leitura
Ano VII - N.º 36 - ago. 2006
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