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porque é
preciso continuar
Peter O'Sagae
Dobras da Leitura
Na breve apresentação ao livro Caminhos para a formação do leitor (DCL, 2004),
Nelly Novaes Coelho afirma que, embora não faltem propostas,
“estamos ainda na fase das experimentações”
para a conquista de estratégias efetivas
que venham iluminar a prática da leitura,
no longo processo que vai do aprendizado das primeiras letras
ao domínio do texto e, nele inclusa, a iniciação literária.
Não é um princípio de conversa encorajador,
porque vem justamente colocar em dúvida algumas décadas de história, reflexão e pesquisa.
Por enquanto, é preciso seguir buscando...
E mesmo correndo o risco do solipsismo, Nelly oferece sua forma de estímulo para
“que cada professor construa seu próprio conhecimento”,
a partir dos oito artigos, ensaios e estudos, reunidos por Renata Junqueira de Souza,
e seus diferentes enfoques (brevemente sumariados abaixo).
Marisa Lajolo abre esta coletânea com o texto de uma palestra sua —
Carlos Drummond de Andrade: uma história exemplar de leitura —,
que compreende uma verdeira aula-viagem aos bastidores de leitura do poeta,
quando menino. Seguindo as pistas deixadas em seus poemas que remetem à história
de Robinson Crusoe, hipóteses são levantadas e a pesquisa enlaça
os suportes textuais que o pequeno Carlos teve acesso.
Indefectível nos argumentos, a autora reconstrói as condições de leitura
de uma época, talvez muito comum em muitos cenários de nosso país.
O terceiro e quartos textos se completam, à medida que conversam diretamente
com e sobre os “agentes da transformação”, os professores. Ensino-aprendizagem
e leitura: desafios ao trabalho docente é a pauta de Ezequiel Theodoro da Silva,
enquanto Ricardo Azevedo ocupa-se da Formação de leitores e razões para a
literatura. Ambos se referem ao contexto da sala de aula em que o professor-leitor
precisa avaliar, julgar e tomar decisões conforme sua consciência e capacitação.
Ezequiel insiste na necessidade de pensar fatores de disponibilidade e qualidade
dos objetos oferecidos aos alunos e, de algum modo, Azevedo arremata a questão:
como apreciar, enfim, os textos, diferenciá-los entre os portadores didático-informativo
e de literatura. Concordam que tanto o texto quanto o aluno possuem natureza complexa,
concreta e assim devem ser respeitados nos processos de interação e intepretação.
Do letramento à alfabetização, Vitória Líbia Barreto de Faria
e a organizadora Renata Junqueira de Souza percorrem o caminho do desenvolvimento
afetivo com a leitura e da aquisição da linguagem escrita. Vitória Líbia contempla
no capítulo Memória de leitura e educação infantil, o cotidiano dos
primeiros contatos em que ver/ouvir o adulto, com um livros em mãos, representa,
para a criança, a segurança e o desejo de ser admitido em um mundo novo de
experiências coletivas. Mostra como o contato com a diversidade de suportes
materiais e gêneros de texto é salutar para a descoberta de conhecimentos e
habilidades futuras. Por sua vez, Renata enfoca a
emancipação do aluno-leitor que toma posse da palavra que liberta, em
Leitura e alfabetização: a importância da poesia infantil nesse processo.
Ato contínuo, a mesma Renata Junqueira e Caroline Cassiana dos Santos contrastam
as práticas pedagógicas sobre A leitura da literatura infantil na escola,
corroborando com a perspectiva de Ricardo Azevedo e a necessidade da interação
dialógica entre o professor, o texto e o aluno.
Juvenal Zanchetta aproxima-se da Leitura de narrativas juvenis na escola
e expõe as principais dificuldades para uma leitura fruitiva competente. Entre elas,
as habilidades não apreendidas ao longo dos anos escolares e a ação prescritiva
do professor em relação ao texto e à própria voz de outros leitores. Conseqüentemente,
compartilha sua reflexão de base metodológica, sem perder de vista a experiência concreta
com um grupo de jovens alunos.
Por fim, no capítulo Jogos da infância em Guimarães Rosa:
entre a magia e a poesia, Prazeres Mendes estabelece as relações de
homologia entre a linguagem da criança e do poeta, evidenciando a densa trama
do sonho ficcional para o vôo literário. O que é próprio da criança e está na
imaginação do artista, e vice-versa, instintivamente.
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