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cânones e círculos
da literatura infantil brasileira
Peter O'Sagae
Dobras da Leitura
Bom livro é aquele que agrada e a ele costuma-se voltar, lendo-o outra vez,
na íntegra ou nos trechos que reverberam o prazer do primeiro encontro.
"Com a literatura para crianças não é diferente", afirma,
na simplicidade que caracteriza sua presença, Regina Zilberman:
"livros lidos na infância permanecem na memória do adolescente e do adulto,
responsáveis que foram por bons momentos aos quais as pessoas não cansam de regressar."
A partir deste mote, que abre o primeiro capítulo de Como e por que ler a literatura infantil brasileira (Objetiva,
2005), a autora e pesquisadora revisita as leituras mais importantes que marcaram a trajetória
centenária de nossa literatura para crianças.
Embora arranjada em percurso histórico, a seleção de autores e obras
não nos é dada sob o regime pouco hospitaleiro da descrição cronológica.
Ao contrário, os capítulos retratam movimentos e intencionalidades da criação artística
que não apenas se sucedem, mas muitas vezes se sobrepõem — principalmente para
a recepção atual —, caracterizando pequenos conjuntos de livros e temáticas.
Regina Zilberman consegue certamente, com clareza e autoridade,
dar forma a um projeto eletivo dos livros de literatura para crianças
canonizados pela crítica e pela tradição editorial brasileiras.
Dos desbravadores aos nomes consagrados de nossa literatura,
saberemos por que o alemão Carl Jansen, o jornalista Figueiredo Pimentel
e o poeta da chave de ouro Olavo Bilac podem ser apontados como
os formadores do núcleo original da produção de textos para crianças,
sob a efervescência republicana da ordem e do progresso.
Monteiro Lobato, imediato sucessor, é destacado no terceiro capítulo
junto aos mecanismos peculiares de sua fantástica máquina de criar:
o elenco de suas personagens e a dimensão de um síto bem maior que um país,
razões de sua popularidade até os dias de hoje, do carinho recebido ante
o público de leitores e dos lucros na venda de seus livros.
Quando as editoras começaram a investir em outros nomes, a literatura para
crianças foi diversificando os gêneros e as séries literárias.
Viriato Correia, Érico Veríssimo, Graciliano Ramos, Francisco Marins, Maria José Dupré e Jerônimo Monteiro são os nomes que deram fôlego a diversas
linhagens do romance infantil e juvenil, publicados originalmente até meados
da década de 1960. No novo período, o cenário dos livros para crianças começou
a declinar, "faltando a centelha de imaginação que a animou a escrita dos artistas
citados antes" (2005: 45). Zilberman recupera, no quinto capítulo, um contexto
histórico de transições e desafios, até o festivo e prolífico BOOM
da literatura infantil e juvenil, nos anos de 1970-1980.
Na descrição comentada de um extenso material, Regina Zilberman seleciona
o que é mais representativo e
sistematiza uma visão mais sincrônica, do sexto ao décimo primeiro capítulo.
Talvez, um simples confronto, entre dois títulos do sumário e os grupos de
escritores eleitos, dê a idéia das diferentes propostas assumidas
pela literatura infantil em expansão, os cânones e seus círculos temáticos.
Reis, fadas e sapos para as crianças brasileiras destaca obras de
Ana Maria Machado, Fernanda Lopes de Almeida, Eliane Ganem, Bartolomeu Campos de Queirós, Pedro Bandeira, Eliardo França, Ruth Rocha e Cora Rónai. Gente e bichos alinha Lygia Bojunga, Clarice Lispector, Ziraldo, Edy Lima, Vivina de Assis Viana, Joel Rufino dos Santos e Maria Heloísa Penteado.
Garotas que mudam o mundo é o título do oitavo capítulo e ainda seguem:
Dos contos tradicionais ao folclore, em que merecidamente é lembrado Haroldo Bruno, por exemplo, Meninos de rua e Detetives mirins — como provas
da diversidade de perspectivas renovadoras que se perpetuam
na justificativa dos livros constantemente reeditados.
Após caminhos tão generosos, porém, três capítulos minguam breves passeios
para a poesia, o teatro e a ilustração (incluindo nessa categoria os livros de imagem).
No décimo quinto e provocativo capítulo que encerra o livro,
Regina Zilberman aponta a obra Um homem no sótão, de Ricardo Azevedo (1982), como emblema
e moldura para a produção mais recente em que se tornam mais explícitas questões
de metalinguagem e intertextualidade, no processo criativo desnudado junto aos leitores.
A literatura infantil brasileira, já consubstanciada desde a aurora lobatiana,
passou a oferecer os próprios canônes a serem tomados em reverência
ou atitude de transgressão, e
"nossos autores apresentam-se inovadores diante de uma tradição sólida que [...]
pede igualmente para ser permanentemente desconstruída e reconstruída" (2005: 171).
Assim, os textos para crianças e jovens leitores, originados na leitura deste passado,
estabelecem uma reiteratividade literária, como se voltássemos ao começo. Círculos.
Apropriadamente, o título do capítulo é uma pergunta: Para onde vamos?
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