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palavra que voa domingamente
Peter O'Sagae
Mestre e Doutorando em Letras pela Universidade de São Paulo
Da sanha antiga do divino adivinhador,
Gloria Kirinus re-cita domingamente sua trajetória
por entre palavras, estrelas e estribilhos de versos,
em Criança e poesia na Pedagogia Freinet (Paulinas, 1.ed. 1998).
Neste trabalho, o rico conhecimento intuitivo da autora-poeta busca
ressonâncias interdisciplinares na voz de téoricos pensadores, como Durand,
Bachelard, Octavio Paz, Maffesoli e, claro, Celestin Freinet,
mirando ao futuro próximo da percepção e da sensibilidade humanas.
Tão próximo, desconfiamos, que este futuro já é o nosso próprio tempo,
porque o livro reproduz a integralidade das reflexões apresentadas
em sua dissertação de mestrado
Entre-vi-vendo a conspiração mito-poética da criança na pós-modernidade,
defendida na PUC-Rio, em 1992.
Nesse ínterim, teríamos conseguido re-ligar, religiosamente em nós,
o ontem e o futuro, o sol, a solidão e a solidariedade de um novo imaginário?
Com que olhos doamos cor à face possível da realidade contemporânea?
Desvelamos vidências, por que não demos nome a uma nova ordem? “A criança que fui chora
na estrada”, desesperou-se um poeta, a alma parada ante a ausência de sua essência tão própria...
Gloria Kirinus permite a nós a busca do tempo-pórtico poético.
“É sempre mais fácil perceber na linguagem infantil as imprevisíveis analogias,
como esta, em que a aura mágica do mito da criação penetra no devaneio deste menino
que há tempo nos inquieta.” (2004: 85)
Em seu primeiro capítulo, o livro fala dos sonhos e das metáforas originais
do homem primitivo, seu pensamento mágico, afeito à imagem e semelhança das
coisas e os nomes inventados. A divindade revela-se pela adivinhação-descoberta
de um mundo em estado nascente... Essa mesma cintilação, de algum modo misterioso
e genético, insufla o gênio dos poetas de hoje. Mas, do caleidoscópio de luas,
no interior de cada homem, Gloria Kirinus deitará sua atenção ao berço poético
das cantigas de ninar. Entre cueiros, a criança recebe duplo alimento
pelo corpo nutriz que lhe concebeu à luz e pela mãe sonora que desperta
ao ritmo insone e às palavricas dos acalantos. Nesse espaço potencial entre mãe e filho,
a natureza mito-poética infantil estende-se do silêncio afora e adentro aos sons.
É delicada a descrição desse importante momento da vida, nas páginas que
rendilham um tributo ao sonho não dormido das horas de vigília.
E, da ronda à roda, a autora rua e lua para os jogos falados da infância...
“As palavras, no contato com a criança, ganham concretude.
Tornam-se palavras-coisa, palavras-brinquedo” (2004: 38) e, nos lembra como,
com muito humor, inventamos rimas sem preocupação com as impossibilidades do dizer.
Gloria ilumina os repentes póéticos da criança,
aqueles instantes urgentes em que sua percepção sincrética dá conta
das ambigüidades, dos gracejos da analogia e da simultaneidade entre o todo
e as partes das coisas que compõem o mundo. As associações imprevisíveis
da criança também rimam com as associações do poeta.
Com cisma de cigarra e fôlego de formiga,
Gloria Kirinus inicia a marcha do segundo capítulo,
inquieta com os dualismos que dividem o comportamento das pessoas,
na escola e na família.
Faz uma viagem pelo tempo histórico,
desatando a ponta do novelo de muitas idéias qu'inda hoje nos enrola,
com atenção às puxadas contra a natureza mito-póetica do ser humano.
Alude a Platão que expulsou, de sua República,
as cigarras e toda asa de palavra que voa domingamente,
e vai a autora
perfilando filosofias racionalistas rumo ao açucar dos livros didáticos
atraindo formigas à docilidade da ordem programada.
“A pedagogia extremamente ordeira
impede a irreverência da linguagem e do pensamento”
(2004: 63), e só faz por inibir a fantasia criativa capaz de conciliar
as oposições impostas. Ao contrário, uma pedagogia que não separa lances
do real e do imaginário, do caos que traz uma nova ordem, dará amparo
à natureza mito-poética da criança, confortavelmente,
re-encantando o mundo, re-encenando o conhecimento.
Antes de abrir o capítulo final de Criança e poesia na Pedagogia Freinet,
os leitores terão apre(e)ndido a coreografia de fundo
que movimenta o abracadabra das oficinas poéticas Lavra-Palavra,
de Gloria Kirinus.
Envolta num manto tecido de invisibilidade,
a mestra-poeta ocultou o que sempre esteve evidente em suas andanças,
re-citando palavras que conjuram o universo a cada gesto.
Simples, de fascínio e prazer,
acontecimento vivo de descoberta.
Por isso, reconhece e otimiza a felicidade da criação,
nos breves instantes em que ela pode irromper pelas frestas do cotidiano.
E será,
nas suas reflexões ulteriores, que o conceito de mundo imaginal,
do antropólogo Michel Maffesoli, entrelaça-se com a prática dos registros de Freinet.
Nas páginas que vão encerrando o livro,
os olhos de Gloria perscrutam misticamente o futuro da sociedade pós-moderna:
“o ato poético é a própria arte de re-articular os despedaços do universo
e até de unir, no seu verso, materiais tão opostos como pedras e penas, ou,
ainda, uma ser outra, ou até uma ser outras” (2004: 91).
A magia ancestral é re-memoração,
ad libitum, ad infinitum no vagalum tum tum de nossos dias
tantos, tantos, quantos, cantos...
Abro a janela, cigarra invade.
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