Ana Maria Machado

Como e por que ler os clássicos universais desde cedo

Objetiva, 2002

 Ana Maria Machado

Ana Maria Machado é brasileira, nascida no Rio de Janeiro em 1941. Lecionou Língua Portuguesa na Sorbone, França, até o início da década de 70. Foi estagiária na revista Elle, pesquisador a no Comitê contre la Faim et pour le Développement; aluna da Ecole Pratique des Hautes Etudes, onde desenvolveu uma tese sob orientação do grande semiólogo francês Roland Barthes. Autora de 108 livros, que já venderam mais de sete milhões de exemplares, hoje é reconhecida e premiada em importantes concursos literários. O definitivo reconhecimento internacional de sua obra aconteceu em 2000, quando ela recebeu o Prêmio Hans Christian Andersen, considerado o Nobel da Literatura Infanto-juvenil, em Cartagena de Índias, na Colômbia. LB


Como e por que ler
os clássicos universais
desde cedo



Luciete Bastos
Professora de Literatura Brasileira da
Universidade Estadual da Bahia - UNEB
Campus VI - Caetité



Diante dos muitos atrativos da diversão eletrônica e do pouco tempo de que as pessoas dispõem para o lazer atualmente, contar e/ou ler histórias clássicas universais passou a fazer parte do passado para muitas. Seduzir, para esse fim, passa a ser o grande desafio de pais e educadores. Será que o público, principalmente o infantil, deixou de se interessar pela aventura, o suspense, o riso, a emoção que essas histórias oferecem? É possível ao livro despertar a atenção do público jovem e disputar com a fantástica tecnologia que a vida contemporânea disponibiliza para eles?
Ana Maria Machado, no livro Como e por que ler os clássicos universais desde cedo (Objetiva, 2002), nos mostra como conquistar o leitor de todas as idades, principalmente o jovem leitor, se o afastarmos da imposição da leitura de clássicos apenas para responder a provas e testes escolares, imposição esta que nunca foi capaz de formar leitores. Demonstra que a leitura de livros ainda é uma excelente fonte de conhecimento e lazer, desde que eles sejam de boa qualidade, diversificados, atraentes e oferecidos aos jovens leitores sem pressão, de forma a seduzi-los para que desejem ler. Numa linguagem simples, franca e saborosa, ela nos faz constatar que ler pode ser uma grande aventura, desde que nos deixemos levar pela emoção e o prazer de enveredar pelo enredo e nos fazer personagem, interagindo com os demais.
Por meio de suas vivências pessoais, a autora nos transporta para uma longa e prazerosa viagem ao interior do que há de melhor em literatura infanto-juvenil e “monstros sagrados” da literatura de adultos que atraíram leitores jovens, pois não vê incompatibilidade entre eles. Percorrer com ela essas histórias é imensamente gratificante, pois nos faz recordar nossas próprias leituras, sentir o gostinho de estar novamente participando das aventuras e ter uma vontade incontrolável de reler alguns deles, só para estar novamente perto dos personagens que amamos e que fazem parte de nossa história de vida. É como visitar um amigo que não vemos há muito e de quem sentimos saudades. Este livro nos faz sentir assim: em débito com os amigos que deixamos de visitar por algum tempo, mas que nos fazem tanto bem, que precisamos estar sempre com eles.
Nada ingênua, Ana Maria Machado sabe que hoje em dia o ensino é diferente e o mundo também; por isso, não sugere inicialmente a leitura de pesadas e completas versões dos clássicos como há alguns séculos se fazia; alerta, entretanto, para que não enveredemos pelo extremo oposto, o de achar que a leitura de histórias clássicas pelos jovens perdeu o sentido e deve ser abandonada nestes tempos de culto à imagem e domínio das novas tecnologias. Ela defende que esse primeiro contato deve ser o mais natural possível, um enamoramento, pois, se assim ocorrer, o leitor terá boas chances de não mais conseguir se separar deles no futuro, seja por (re) leituras, seja gravados na memória. Mostra-nos a importância da fantasia, do mundo mágico e maravilhoso do livro, num percurso fabuloso desde a Idade Média até nossos dias. Sua abordagem sobre os clássicos se sustenta em dois pilares. Primeiro, reduz os seus comentários críticos às narrativas, pois crê ser muito importante aproximar os jovens da grande tradição literária para que eles fiquem conhecendo as empolgantes histórias de que somos feitos. Segundo, deve-se dar a oportunidade de um primeiro encontro com os clássicos, na esperança de que possa ser sedutor, atraente e tentador, resultando na construção de uma lembrança, que fique para a vida toda, e que se torne um convite para a futura exploração de leituras mais densas.
Uma viagem. É como podemos qualificar esse livro. Uma viagem de conhecimentos, encantos e encantamentos. A autora não só relembra histórias da Grécia e Roma antigas e seus deuses pagãos, como também da Bíblia, leitura fundamental, que tem presença nítida no pensar e agir de muitos povos, discutindo-a sob vários enfoques. Mergulha na Idade Média, por intermédio de histórias maravilhosas, que contam feitos de extraordinária bravura de cavaleiros, que encantam até hoje. Faz alusão também às obras de temática medieval, que também tiveram seus enredos condensados em versões para o público infanto-juvenil. Ancora no Renascimento, um período fértil de histórias de viagens, conquistas de territórios, colonização, aventuras, naufrágios e sobrevivência, e indica excelentes títulos com esses temas. A viagem prossegue, sugerindo livros de histórias que tiveram por cenário a natureza, a selva ou os corredores dos palácios; algumas de baixo valor literário, entretanto, fantásticas e saborosas para serem lidas. Ela também indica livros de qualidade que exploram o medo e o terror e os de detetive que considera imperdíveis. O prazer não se encontra apenas em histórias empolgantes de aventuras, por isso ela prossegue citando livros em que a realidade do dia-a-dia está presente e carregada de emoções. E completa a viagem no século XX, quando a ficção científica passou a ser o alvo de interesse dos escritores uma vez que o planeta Terra não oferecia mais mistério, tudo já estava descoberto e mapeado.
O livro de Ana Maria não obedece a nenhuma ordem, quer cronológica, quer geográfica, quer de importância crítica; vai e vem no tempo, agrupando-os mais por afinidades, numa espécie de mapa sugestivo, para que a gente se desvie da rota-roteiro. Surpresa com o volume de adaptações de boa qualidade que já existem no mercado disponíveis aos jovens leitores, admite que na sua viagem deixa de embarcar alguns autores de que gosta, mas que preferiu, nesse passeio, a companhia daqueles que já falam a nossa língua, que podem facilmente ser encontrados entre nós e que são acessíveis aos pequenos.
Os clássicos são textos inesquecíveis que entram em nossa vida para ficar, pois eles são livros que sempre reservam algo ainda a dizer, trazendo marcas de leituras que os antecederam e vestígios na cultura das sociedades. Ana Maria sugere a leitura de adaptações de qualidade, que instiguem, além de outros, o prazer e a curiosidade de visitar os originais. Ela menciona muitos trabalhos interessantes que favorecem o contato das crianças com os textos de forma divertida e prazerosa, além de promover o conhecimento desse mundo que formou toda cultura Ocidental. Ela aponta, ainda, uma outra razão para lê-los desde cedo: a descoberta lenta e enriquecedora de referências atuais que nos levam a histórias antigas. E negar o prazer dessas descobertas a gerações futuras é um desperdício absurdo.
De forma bastante original, ela percebe as boas obras publicadas ao longo da história da humanidade como um direito do homem, pois semelhante ao filho que tem direito à herança dos pais, o ser humano tem direito ao seu patrimônio de leitura acumulada. Mas, infelizmente, admite, muitos sequer desconfiam da existência desse tesouro. A autora faz uma reflexão importante: é provável que as gerações vindouras não entendam a literatura atual por não conhecerem os clássicos que a antecederam. E esse pesadelo pode se tornar real em muito pouco tempo, na medida em que a literatura sempre se fez mantendo um diálogo com textos que a precederam.
Outra idéia que a autora defende é a de que uma análise dos contos de fadas tradicionais revela que não são tão retrógrados assim, como pode parecer ao leitor superficial e/ou apressado. Simbolicamente, refletem os anseios de ascensão social da época em que surgiram. Por meio dos contos, muitos expressavam as injustiças sociais como forma de denunciar uma época de escravidão e medo. Além disso, têm a capacidade de divertir enquanto proporcionam esclarecimentos sobre as próprias crianças, levando-as a tirar diferentes significados de uma mesma história.
O interessante trocadilho do título do último capítulo: “Navegar é preciso, viver não é preciso”, de duplo sentido: o sentido original - ser necessário navegar-, e a (re) leitura feita pela autora - precisão do ato de navegar em oposição à imprecisão, à desordem e à inexatidão da vida-introduz a discussão sobre índices que nos orientem nas escolhas de leituras que pretendemos realizar. Ela explica que a escolha da metáfora navegação não se fez aleatoriamente: tanto pode ser relacionada ao imprevisível no mar, como ao emprego atual da palavra no universo da computação “navegar pela Internet”, que sugere passeios por variados pontos no globo terrestre, visitas ao passado, caminhos que vão se abrindo sem limites, sem fronteiras. Nossas leituras se dão ao acaso, como um barco que se entrega à correnteza, um livro pede a leitura de outro, um livro é abandonado por outro, uma descoberta provoca uma (re) leitura, uma leitura contemporânea pode nos levar a procurar um livro escrito há séculos. Podemos ler mais de um livro simultaneamente, nos apaixonar por um e não conseguir nos desgrudar mais dele. Em outros momentos, damos uma pausa na leitura apenas refletindo sobre o que já foi lido como um barco que flutua ao sabor das ondas.
Ana Maria Machado alerta para que toda indicação de livros canônicos, inclusive a sua, venha acompanhada de uma discussão honesta sobre a própria escolha. Embora reconheça os limites de um cânone e a pertinência das objeções políticas que são feitas de listas desse tipo, percebe nos clássicos uma extensão da alfabetização, que garante que não fiquemos à margem da sociedade. Ela sabe que sua posição é polêmica e respeita os posicionamentos contrários, acredita que a melhor forma de mudar o que ainda vem por aí não é ignorando tudo que já se construiu antes, mas conhecendo para amar, ou até mesmo para refutar. Defende a idéia de que pessoas, com histórias e procedências diversas, à medida que vão ampliando suas leituras, vão construindo a sua própria rede de preferências e passam a influenciar outras pessoas. Acrescenta que, aos poucos, à proporção que se multiplicam, os leitores incorporam novos títulos e novos autores; podendo variar suas escolhas, tendo liberdade para optar entre a leitura dos clássicos ou de obras mais recentes. Nunca tantos novos títulos surgiram e de tão variados meios. Ana Maria reconhece que um novo cânone está se formando, mas adverte que não se trata de excluir a lista tradicional em prol daquela que se forma, tampouco refutar a nova por preconceito. Na medida em que mais gente lê e melhor, a criticidade se desenvolve e naturalmente alguns escritores vão sendo substituídos por outros. Ninguém tem o direito de determinar um índice de proibições, impor uma lista de escritores tradicionais ou de um novo cânone. Não se lê para concordar cegamente com tudo, mas também não se lê para discordar e refutar tudo, numa interminável disputa e eterno desafio.
A autora fez sua opção de leitura ao longo de sua vida e nos convida a conversar com ela sobre essas leituras sem a pretensão de nos limitar e/ou de nos impor uma lista do que deve ser lido. É antes um passaporte que nos credencia a viajar por séculos de literatura da mais alta qualidade, numa viagem a países reais e de sonhos, entre personagens incríveis criados por autores fabulosos. Trata-se, sem dúvidas, de um livro instigante e esclarecedor para todos aqueles que pretendem conhecer um pouco mais dos clássicos da literatura universal. Não só professores e estudantes de literatura, mas também todas as pessoas que sejam apaixonadas por grandes e inesquecíveis obras. Realmente, uma viagem inesquecível. Mas essa experiência é imprevisível, inexata como uma viagem marítima da era cabralina: não se sabe quando, onde e como irá se realizar essa descoberta. Só se tem certeza da viagem. Embarquem!
Dobras da Leitura
Ano VI - N.º 28 - nov. 2005
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