Neide Medeiros Santos

Guriatã, uma viagem mítica ao "país-paraíso"

Idéia Editora, 2005


Com sete notas de pássaro
dentro do seu assovio
e um verde alguidar de louça
a menina foi ao rio.
No sabão de pedra branca
bateu pano, lavou mágoa
e escreveu, com cinco dedos,
sobre a página da água,
as vogais, as consoantes,
a fácil prosa corrente,
os versos soltos na folha
do caderno transparente.

de bom Cordel

Peter O'Sagae
Mestre e Doutorando em Letras
pela Universidade de São Paulo



Os versos de Marcus Accioly, parte do canto XXVIII - da menina e seu espelho, bem traduzem o esforço de anos de sua mais dileta leitora. Sobre o livro do autor, Guriatã, um cordel para menino (1980), a professora e pesquisadora da UFPb, Neide Medeiros Santos, tem batido sobre pedra branca extensos e finos lençóis de leitura. O tempo todo de idas e vindas, entre Campina Grande, João Pessoa e a cidade de Araraquara, no interior paulista onde defendeu seu doutoramento (na área de Estudos Literários, UNESP, 1999), condensam-se no gentil Guriatã, uma viagem mítica ao "país-paraíso" (Idéia Editora, 2005).
Seu assovio é seu convite para a viagem no rio-discurso da reflexão teórica, todo banhado de lirismo: Neide Medeiros Santos escapa dos excessos acadêmicos e nos entrega um texto limpo, pronto para estender-se sob(re) os olhos de quem se introduz na área dos estudos de cultura popular, da literatura para crianças e jovens, da poética. Achegas de cordel, suas modalidades de cantoria e composição, vão abrindo o espaço para a recepção de uma das grandes obras que poderiam integrar os "clássicos" da Literatura Infantil e Juvenil no Brasil; no entanto, o Guriatã do poeta permaneceu quase invisível à crítica especializada. Asa de mágoa, prejuízo nosso, os principais livros teóricos sobre LIJ da década de 1980 omitem referências ao trabalho de Marcus Accioly. Contribuindo para a divulgação da saga lírica do autor, a pesquisadora aponta a quebra do silêncio no Dicionário de Nelly Novaes Coelho e num artigo de Antônio Hohlfeldt, publicado em revista.
No alguidar de louça da menina Neide, temperam-se aprendizagens extraídas, inicialmente, de A poética do espaço, de G. Bachelard (para quem, a fenomenologia da imaginação advém com constante desejo de evadir-se à literatura), de nosso mestre Câmara Cascudo e a universalidade com que reveste comentários sobre as narrativas folclóricas, ainda Staiger e Genette. Assim, a metáfora da viagem nos conduz à poesia no estado de mito, à saudade primordial de todos os homens, ao país-paraíso da infância: o espelho das águas entre o poeta-autor e sua leitora.
O vôo se lança aos vínculos intertextuais, e vai reconhecendo a recorrência das histórias contadas pela tradição oral na produção literária proposta por Marcus Accioly, nos poemas XXII - da festança no céu, L - do surrão-de-couro e LVI - da gemedeira, que resgatam figuras de meter medo como o Bicho-Papão, Papa-Figo ou Homem do Saco, até o dito Bicho Caga-Grosso, e LXXIX - do meio-termo que recapitula o episódio de certa menina enterrada no quintal de sua casa, cujos cabelos começam a medrar verdes sobre a terra... neste ponto do livro, atenção: vamos sabendo que Neide Medeiros Santos também faz suas recolhas de contos diretamente da boca de quem canta e conta: e, com cinco dedos, vogais e consoantes, escreve na superfície do papel.
No próximo pouso, a pesquisa entrelaça a questão dos gêneros lírico e épico, tão afeitos à crítica tradicional, e põe à mesa as evidências que constroem Guriatã, um cordel para menino como poema híbrido prenhe de outros poemas, alguns até mesmo independentes da saga dos meninos Leunam e Sucram. As relações entre o repertório de obras eruditas e populares povoam as fronteiras de ricas possibilidades expressivas. Em sua classificatória, a pesquisadora destaca "os poemas pontos de apoio" que funcionam como leitmotiv, fios condutores, da ação das personagens e dos ritmos postos em verso.
Em seu quarto capítulo, o livro da professora Neide abre-se para a investigação dos elementos paratextuais (título, subtítulo, epígrafes, dedicatórias, notas explicativas, outros anexos publicados com a saga lírica) que prospectam a viagem e operam na perspectiva da leitura que podemos assumir e assuntar. Em sete páginas de pássaro, dedicadas à ilustração, desdobram-se "as relações icônico-textuais", escreve Francisca Neuma Fechine Borges, na apresentação, "numa feliz e bela conjunção das produções de dois grandes artistas nordestinos, o poeta Marcus Accioly e Dila, 'o mago da xilogravura' e poeta-editor da Literatura de Cordel". São examinados apenas dois momentos de intervenção palavra&imagem, de toda a fartura de gravuras que habita o livro-cordel para crianças. No entanto, o incurso teórico sobre as técnicas de reprodução da arte (via Benjamin), mais o resumo do panorama histórico da xilogravura no Brasil, garantem a satisfação de conhecer a passagem - dessa arte - da imprensa ao cordel, e compreender a similitude entre os folhetos e o poema escrito à moda popular.
Mitos e mitos verdejam na última parte da viagem: entramos no coração do país-paraíso, onde o mais guardado espelho se encontra. Neide Medeiros Santos, então, aproxima a poesia do Guriatã e os reflexos de Narciso, as afinidades que transbordam no rio mítico apresentado por extensa herança literária, o desejo edênico de regresso. Ao unir o primitivo e o homem moderno, a autora rememora a ilha ideal da Odisséia, a prometida Canaã, o paraíso terrestre de toda Idade Média, a Ilha dos Amores do náufrago Camões, Gonçalves Dias e seu exílio, Graciliano Ramos e sua obra para crianças, de 1937, A terra dos meninos pelados... Também comparecem os mitos do pássaro e da morte que tudo finda. Dos mitos da Antigüidade clássica, chega-se à presença e análise dos mitos populares no cordel para meninos: Bicho-Papão, Lobisomem, Papa-Figo, Caipora, Mula-sem-Cabeça e a Cabra-Cabriola. À luz de fundamentos da Antropologia Cultural, da Psicanálise e da Simbologia, o particular e o universal fundem-se, magicamente, numa busca pelo tempo vivido no plano das ficções que são extremamente reais para nós.
No caderno transparente de suas leituras, Neide Medeiros Santos consegue reintegrar o interesse sobre o livro de Marcus Accioly, Guriatã, um cordel para menino, infelizmente esgotado, à cena dos estudos de Literatura para Crianças e Jovens. A seu modo, dentro do seu assovio, ensina-nos que a viagem não é apenas tema, o pretexto de entregar-se ao caminho; ao contrário, é prática intertextual de navegar-se internamente por entre obras do passado presente.



P.S. Nos anexos de Guriatã, uma viagem mítica ao "país-paraíso", você encontra um acróstico de Marcus Accioly e o texto que produzi, quando fui aluno de Neide Medeiros no mini-curso Do cordel à literatura infanto-juvenil: as marcas do popular, durante a 14ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, em 1996, além da versão ilustrada do conto A menina dos cabelos verdes, publicada no suplemento Correio das artes, em abril de 1998, e comentários de crianças.

P.S.2. Ah, sim: Rose Catão, uma artista paraibana, fez as xilogravuras que antecipam os cinco capítulos do livro e sua capa apresenta uma aquarela de Sóter Carrero, um artista pernambucano, retratando a casa grande do Engenho Laureano - município de Aliança, região da mata-norte de Pernambuco -, local de nascimento de Marcus Accioly e onde viveu o poeta até seus onze anos.

P.S.3. Depois do lançamento durante o Congresso Internacional de Literatura de Cordel, Neide Medeiros Santos recebe amigos e convidados para sessão de autógrafos, na Livraria Paulus, de João Pessoa: Praça Dom Adauto, Centro. No dia 15 de outubro - Dia do Professor, às 8h00. Salão de Eventos.
Dobras da Leitura
Ano VI - N.º 27 - out. 2005
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