revisitar É preciso
Peter O'Sagae
Professor de Literatura Infantil e Juvenil
Doutorando em Estudos Comparados (USP)
Quando estamos a falar de livros, poesia, obras de ficção, em sala de aula com
alunos de Letras, ou mesmo numa conversa informal entre amigos, nossos juízos
de valor sobre (o que é e o que se entende como) Literatura dão cores aos
comentários. Todos nós temos (alg)uma concepção literária guardada em mente
__ e dela resultam expectativas, perspectivas, preferências e
exigências diante de um romance, autor, pequeno poema, momentos de leitura.
O que raras vezes coloca-se sob suspeita é o fato de que todos
os variados matizes (que movimentam discordâncias e simpatias) encontram-se
profundamente ancorados em paletas filosóficas antigas, quase sempre renovadas
por olhares teóricos esparsos...
A posição que assume cada leitor frente
a um fato literário é marcada por uma vida de aprendizagem com outros leitores
que aprenderam com outros leitores e, assim, sucessivamente para o passsado de
leituras e aprendizagens. E durante a troca de experiências entre aqueles que
conversam sobre a última novidade encontrada na estante, ou a urgência de
descobrir um autor, entre uma idéia e um gesto, surge a curiosidade,
ou surge a necessidade de saber um pouco mais sobre as concepções que outros
homens tiveram a respeito da criação literária. Podemos ser mais ou menos platônicos,
mais ou menos aristotélicos perante um texto literário. Depende da inclinação,
ou do hábito. Discernir tais diferenças, para o estudante de Letras,
é coisa fundamental; para os amantes da Literatura sem rótulos, complementar.
Para ambos, um caminho de síntese e dedicação a esse debate é oferecido pelas
professoras Magaly Trindade Gonçalves e Zina C. Bellodi, em Teoria da
literatura “revisitada” (Vozes, 2005), num percurso iniciado pelos
pensadores clássicos da Antigüidade aos nomes proeminentes do século XX.
Como uma história anotada, as autoras revelam as idéias e os ideais sobre o fazer
literário de cada época, demonstrando como conceitos de arte e de Literatura
vieram se transformado, ao longo de diversas elaborações e dúvidas: afinal,
o que é Literatura? compromisso social ou cópia da realidade? busca da verdade?
de uma verdade particular ou universal? uma seleção de traços
verossímeis? transcendência? jogo de sentidos? jogo de palavras? artificialidade? engenho técnico? inpiração?
estilo e estranhamento da linguagem cotidiana? um maneirismo ou simples modismo?
Com qual fundamento ou concepção partimos rumo a uma reflexão mais apurada?
São muitas as questões desafiadoras para quem faz sua primeira “visitação” aos
estudos de Literatura. Pois então, o que encontrará à frente?
Um labirinto de concepções literárias prodigamente construído no último século,
ao lado dos avanços das demais ciências e ramos do conhecimento. Se, por muito tempo,
a investigação da literatura permaneceu atrelada às questões filosóficas,
de caráter contemplativo quanto a beleza, prazer e os modos de fruição,
ou em vista de seus traços pragmáticos, da vitalidade e validade quanto possíveis
funções,__ ao tentar impor-se como ciência autônoma, a Literatura
alcançou o alto de uma edificação que acomoda, senão uma, várias teorias
__ com diferentes fundamentos para os estudos literários e a prática
da crítica. A cada tempo, um tema, uma estética. E, assim, sob o signo da
pluralidade de uma produção artística em constante inovação de seus modelos,
as visadas teóricas ora se encontram, ora separam-se radicalmente bem além de
onde os caminhos se bifurcam... O mais importante é verificar, no entanto,
como as muitas teorias preconizam um registro de leitura, de produção de significados.
Gonçalves e Bellodi deslindam mapas para nossa orientação entre as diversas
correntes literárias na eclosão que tomou o século XX, explicitando seus pontos
e portos. Se Camões vaticinava em versos que o navegar possui exata precisão (aludindo às descobertas científicas de sua
época), o mesmo não poderia ser dito a respeito da leitura como um ato de
navegação por entre obras e pensamentos __ por mais que se insista
que “ler” é preciso. Com cautela, as autoras nos alertam para as armadilhas
no canto de sereias e vão dirigindo nossa ânsia ao encontro de uma consistência,
serena. Íntima preocupação de todos nós, curiosos ou especialistas, a busca
em torno das questões teóricas que envolvem a Literatura corresponde a uma
necessidade básica do ser humano, como o impulso para explicitar a natureza
daquilo que o toca profundamente, porque algo que diz respeito à sua própria
natureza. (2005: 36) Por essa e muitas outras razões, as tentativas de
amarrarmos concepções do presente com as rotas de leitura do passado.
À baila dos muitos conceitos sobre Literatura que podemos segurar, sem conflito
ou concorrência de discordâncias, nenhum acaso de idéias irrompe solto no
caminho revisitado das teorias literárias. De tal modo, podemos voltar às
rodas de leitura e comentários sobre obras, entre amigos ou entre colegas
da sala de aula, mais seguros.