José Veríssimos

O que é literatura e outros escritos

Landy, 2001


o
pensamento literário:
um Século atrás


Peter O'Sagae
Professor de Literatura Infantil e Juvenil
Doutorando em Estudos Comparados (USP)



Recebi em maio deste ano, o livro de José Veríssimo O que é literatura e outros escritos, publicado originalmente em 1907 e que a editora Landy nos presenteou com a segunda edição em 2001. Quase um século separa a cena de produção da obra da recepção atual e não é pequena a curiosidade para uma aventura no pensamento literário de um maiores críticos do final do XIX e o começo do XX, ao lado de nomes como Araripe Júnior e Sílvio Romero. Sua leitura por ventura exige o esforço do breve esquecimento de cem anos de transformação das letras brasileiras e de formação de identidades leitoras.
A primeira parte do conjunto de textos intitula-se Variedades Literárias e é aberta por dois artigos marcados por uma dúvida sempre renovada: "O que é literatura?" e "O futuro da poesia?". José Veríssimo busca a metáfora da relação entre o desenho e a pintura para contornar o próprio conceito do que entende por literatura. "Na expressão escrita são os artifícios", afirma, "que fazem da simples representação verbal das coisas vistas ou sentidas uma arte". Mas sabe-se insatisfeito por uma caracterização sumária, incompleta. A arte literária não se analisa, nem se contempla apenas pelos aspectos exteriores, pela forma... À busca de explanações para a inclusão de um texto ou de outro no campo da literatura, o crítico convoca argumentos, ora de Moniz Barreto, ora de Winchester - e mesmo de Lacombe, sobre a generalidade do pensamento, a impressão da vida, a verdade, o fato inteligível, a emoção e arrisca confidenciar uma qualidade (um paradoxo) da literatura: "é justamente o transitório da emoção que faz um livro de interesse duradouro". No entanto, Veríssimo ainda não chegou onde queria, à distinção desejada. Os outros críticos que tomou, "quase todos se despreocupam da beleza". E, neste ponto exato do texto, somos obrigados a concordar com o autor, desejando firmar, com ele, uma posição, uma definição do objeto literário. Pouco mais de duas páginas encontram-se à frente do leitor que é, então, levado às bases orais da literatura, a partir das quais, escrever seria senão uma modalidade, sua existência fixa... O artigo revela um impasse e uma conciliação equilibrados enquanto possíveis à época de suas reflexões.
Não seria sem outra preocupação que o crítico paraense escreve "O futuro da poesia?", vivendo um período tumultuado: "escolha de um futuro presidente, crise do café, crise do açúcar, crise da borracha, crise financeira e crise econômica em suma". Igualmente, haveria a crise da poesia, a despeito de tantos e bons poetas multiplicando meios de sua expressão artística. Contudo, talvez não exista essa crise, mas: a crise da crítica. Estranho espelhismo? Nem tanto. Veríssimo mesmo afirma como, em períodos passados, a crítica literária se fez presente e pródiga junto aos poetas mais produtivos, complexos e completos. "A obra de arte é feita para ser não só sentida, mas apreciada." (E aqui encontramos uma pedra de toque sobre como e por que proceder à meta-produção literária da crítica.)
É preciso compreender, no entanto, outros conflitos próprios do crítico José Veríssimo, quando o propósito do artigo começa a emergir, à quilha das ondas agitadas de suas palavras, à superfície da página. Nesse sentido, "O futuro da poesia" é um tesouro mergulhado no tempo (permitam-me roubar o ponto de ponto de interrogação favorecendo a ambigüidade). Sem dar conta das transformações propostas pelo simbolismo e demais poetas pós-românticos, o autor concebe a poesia como um produto natural do pensar e do sentir humanos, imutável em sua essência, que jamais libará a crise, dentro de uma literatura como função da sociedade. Simultaneamente e sem contradição alguma, a considera sob o influxo de uma ordem evolutiva e argumentos biogenéticos: toda arte nova dá continuidade e desenvolve as formas suas precedentes. Para ele (e muitos, um século depois), este é o natural evoluir das artes; escolas e modas literárias são expurgadas pela criação futura. O esforço de Veríssimo era, então, desterrar "ilusões de verdade" entre aqueles que afirmavam a diluição da poesia na prosa, o deslizamento entre os gêneros literários tradicionais, pois "confundem-na com a prosa e aventam que ela perderá finalmente os seus distintivos essenciais, o seu ritmo, a sua cadência, a sua assonância, e a rima e o metro e se fundirá na prosa".
Estes dois artigos das Variedades literárias nos oferecem não apenas os fundamentos da crítica de José Veríssimo: situam o homem e as questões de seu/nosso tempo. Nos demais registros que compõem o volume de O que é literatura e outros escritos, o crítico ainda demosntra uma vitalidade culta e perspicaz a fazer provocações para os estudiosos de hoje, uma vez que os debates sobre os princípios geradores ou reguladores da produção literária ainda permanecem. Outras partes do livro — como Homens e coisas estrangeiras e Homens e coisas brasileiras — satisfazem pelo variado repertório de leitura.
José Veríssimo, que viveu entre 1857 e 1916, segundo João Alexandre Barbosa que assina a apresentação do livro, contribuiu significativamente para a história das idéias críticas brasileiras. Também ajudou a fundar a Academia Brasileira de Letras, mas dela acabou se afastando por discordar do modo como seus ocupantes eram eleitos. Nos textos desta coletânea, enfim, reside sua amadurecida e incessante busca por critérios de leitura e avaliação de obras.

Dobras da Leitura
Ano V - N.º 22 - out. 2004
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