Rosa M. Hessel Silveira, org.

Professoras que as histórias nos contam

DP&A, 2002


do
jardim da rosa,
as professoras


Peter O'Sagae
Dobras da Leitura


À volta de Rosa Maria Hessel Silveira, um grupo de professoras debruça-se sobre livros de literatura infanto-juvenil. Nenhuma estranheza para quem está acostumado às rodas de leitura compartilhada — também entre adultos — para a fruição e boa discussão sobre os universos possíveis da ficção. Ler e comentar tornam-se ações sinônimas de viver e compreender o mundo. O que há de bem particular, não fosse o cenário do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), é a intenção do grupo de estudos: rastrear como são construídas as imagens ou representações de professora (e de professor igualmente) nos textos endereçados a crianças e jovens. Professoras que lêem professoras: boa parte do resultado desse trabalho pode ser verificado no livro Professoras que as histórias nos contam, lançado em 2002, pela DP&A Editora.
A idéia de representação pode ser entendida como inscrição, imagem constituída de signos e conceitos, marcas de comportamento e seus elementos afetivos, mentais e sociais. De maneira alguma, um sistema de representações é estático: ao contrário, elas são modificadas ao sabor das circunstâncias e pelo modo como podemos atribuir significado às coisas do mundo... Rosa Maria e seu grupo trabalham na esfera dos Estudos Culturais e investigam imagens de professores e professoras, buscando re-estabelecer conexões entre as representações contidas na literatura infanto-juvenil e outros objetos da cultura produzidos pela sociedade.
Nesses confrontos, no entanto, é fácil encontrarmos traços assemelhados, imagens espelhadas entre a realidade de nossas vivências e a ficção, ou mesmo imagens distantes e distorcidas entre nossas próprias representações e aquelas que são propostas pela literatura. Mas, na seara desses estudos, não se trata do desvelamento da professora ou do professor real, nem mesmo de fazer a denúncia do quanto ele e ela estariam sendo deturpados por um discurso específico. Ainda que a representação seja uma produção de sentido através da linguagem, é sempre bom firmar que "não há uma simples relação de reflexo, imitação ou correspondência um-a-um entre a linguagem e o mundo real" (Hall, 1997: 28 apud Silveira). Assim, Rosa Maria e as demais rosas-com-outros-nomes não se colocam como juízas da verdade/mentira de tais personagens: nos oito artigos que escrevem, buscam apenas recorrências: a continuidade da dimensão (re)produtiva das características que assinalam a identidade de professoras e professores na literatura para crianças e jovens.
Maria Lúcia Wortmann observa como a aventura e o suspense mesclam-se às ações escolares, reconfigurando a imagem do professor de ciências e do cientista, nas tramas de mistério. "Os textos analisados falam de professores de Matemática, de Anatomia, de Física, de Biologia e de Química" e vão revelando fisionomias singulares que se tornam reconhecíveis ora pela aparência, ora pelo discurso de explicações, descobertas e invenções, como também pelos valores morais, o uso de seus conhecimentos e resultados de pesquisa.
Rosa Maria Hessel Silveira toma a palavra, no segundo artigo do livro, e abre ouvidos para a palavra da professora representada pela verborragia. A professora de papel é incansável, repetitiva, loquaz, dona das palavras que são, preferencialmente, daquelas bem difíceis para seus alunos. Imagem para a diversão literária ou ridicularização de professores em sala de aula, a dominante, nas obras analisadas, é o destempero verbal. Vale lembrar a constante afinação da literatura com os discursos de contestação que preencheram páginas e mais páginas na década de 1980 e ainda reverberam em textos mais atuais para o público juvenil. Porém, adverte-nos a autora, o tom da voz pode ser também uma projeção circunstancial — rosa dos lábios entre o grito e o silêncio: "minha professora falando com todos parece que fala com cada um de nós, com muito carinho" (in O diário de Abner, de Graziela Monteiro, de 1987).
Daniela Ripoll resgata imagens da professora-sedutora e da professora rosa-roubada, ao discutir beleza, inteligência, conduta ética e gênero. Faz desfilar Jandira, professora fatal (em todos os sentidos e vestuários) criada por João Carlos Marinho para sua celebrada série da Turma do Gordo. Atrás e longe, discreta em sonhos e desejos, Donana que só quando aposentada conhece o amor e a desilusão num romance de Giselda Nicolélis. Síntese das representações, a professora maluquinha de Ziraldo aparece, como sempre, um anjo de corpo escultural, olhar de veludo que, às vezes flecha, atravessa o coração de todos os alunos... Neste artigo, outros perfis são alinhados e até mesmo professores aparecem equilibrando joviliadade e maneiras de ensinar; no final, há a certeza de que a representação da professora vem se afastando, dia mais, dia menos, de um modelo tradicional do "corpo" docente.
Gládis Kaercher retece leituras sobre o fluxo das águas do preconceito, a representação presente e ausente de professores negros na literatura para crianças e jovens. A autora entrelaça fundamentos da Sociologia acerca do racismo no país, discurso verbal e recursos da ilustração, memória da escravidão, na análise de dez obras. O artigo que se inicia brando-regato com reminiscências da meninice da autora, torna-se torrente das representações que, se pretendem denunciar a exclusão, naufragam no reforço da discriminação com tendências a um realismo-naturalismo. Gládis conta-nos como as imagens do negro, não somente de professores, ainda são tragadas fundo ao mar de es(bran)quecimento literário... Rosa negra, sua vida, seu caminho por entre livros, sua escolha de professora, tudo conflui.
Iole Faviero Trindade ocupa-se da representação social do fazer da professora alfabetizadora, sua relação com a criança-personagem e as diferentes atividades que promove em aula. Ficção e questões pedagógicas produzem cenas que perpassam a lousa tradicional, a régua séria e autoritária no ar, livros de literatura infantil, o vídeo e o zapping pelos canais de televisão. O artigo vai além da imagem da alfabetizadora (e é interessante vê-la representada sob a forma de animais ou objetos antropomorfizados, como uma professora aranha, pata ou ostra) e acaba por caracterizar concepções de ensino-aprendizagem, de língua, de texto, da atividade de escrita e do ato de ler. Do acervo analisado, obras existem e insistem em colocar o leitor na posição de aluno: a literatura como lição. "Embora haja uma discussão do quanto a literatura infanto-juvenil queira se desvincilhar dessa função para atingir o estatuto de arte literária (...), ela se torna explicitada toda vez que 'uma lição' é dirigida a seu destinatário, ao/à leitor/a infanto-juvenil e às próprias professoras, já que muitas dessas narrativas são usadas em cursos e oficinas de capacitação docente e na própria sala de aula."
Lúcia Elena Amaro reafirma o tratamento do livro como artefato cultural, cujas marcas do tempo-espaço de produção são capazes de gerar significados, ao rastrear imagens de um tipo muito especial de professor: diretoras e diretores de escola como signos da autoridade, bom senso e dedicação. Por sua vez, Maria Isabel Dalla Zen busca outra representação igualmente específica: as professoras e os poucos professores de Língua Portuguesa. Alguns ainda podem ter o vírus da chatice e a verborragia estridente, mas começamos a ver neste artigo, outras possibilidades de significação de imagens quanto às questões de identidade profissional, sexo, ética e afetividade, classe e ordem social.
Fátima Maria Pilotto, por fim, retraça o perfil dos professores de Educação Física (sim, na literatura para crianças e jovens, eles são a maioria) e quase sempre emoldurados por um discurso que põe o corpo em evidência: através de dicas de saúdes ou de referências ao aspecto físico. Do ditador carrasco rígido à pontualidade, da força bruta e burra, a imagem do professor de Educação Física pode adquirir outros atributos, como o de companheiro, de incentivador, e mesmo ares de filósofo. A autora ainda associa tais representações a três grandes instituições que tem influenciado a formação desses profissionais: a instituição militar, a médica e a esportiva.
Ler Professoras que as histórias nos contam é compreender que as múltiplas representações da professora e do professor, na literatura infanto-juvenil, são peças constituintes de nossa própria realidade e que, na prática das interações sociais, exercem uma pedagogia da significação do cotidiano. Certamente, quanto mais variadas são as imagens/construções que nos chegam, maior será a rede de conceitos que estaremos habituados a lidar. Afinal, professoras leram professoras. Entre perfumes e espinhos, as rosas de nossa compreensão.

Dobras da Leitura
Ano V - N.º 22 - set. 2004
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