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leituras na ponta do giz
Peter O'Sagae
Professor de Literatura Infantil e Juvenil Doutorando em Estudos Comparados (USP)
Ninguém
mais teme a aproximação do livro com a lousa — e os debates acirrados da década
de 1980, sobre o valor estético condenado ao uso utilitário da literatura para
crianças e jovens no interior da escola, começam a soar como bizarria do
século passado... Parece mesmo que ninguém mais cairá na armadilha do discurso
ingênuo da leitura pela leitura, da leitura-prazer como viagem despretenciosa a
mundos imaginários, diante das novas exigências, argumentos e propostas do
ensino-aprendizagem da leitura competente. Sensível às mudanças gestadas pelos
novos parâmetros curriculares, Maria Alice Faria revela-nos Como usar a literatura infantil na sala de aula,
publicação de 2004, pela editora Contexto.
Em seu livro, a autora ocupa-se dos caminhos para sistematizar um trabalho pedagógico criativo e inteligente a partir de obras de ficção para crianças e jovens, sem abrir mão de referências teóricas e análises meticulosas. Tanto o professor-mediador da leitura, quanto a criança, carecem abraçar um conhecimento literário que, segundo Christian Poslaniec e Houydel, constantemente citados pela professora Maria Alice Faria,
"implica o domínio de um certo número de instâncias do discurso, entre os quais aqueles que aparecem com mais freqüência [estão] a personagem, o narrador, o espaço-tempo, o gênero". Todo o envolvimento que temos com a articulação dessas instâncias da narrativa ficcional, segundo os mesmos teóricos, perpassa e é perpassado por três diferentes níveis de leitura
— uma leitura comprometida, marcada por alta carga de emoção diante do texto e, atravessando-o, ao sabor de sua identificação com heróis, o leitor "corre" para desvendar o fim da aventura;
— uma leitura aprofundada em que as experiências e as curiosidades pessoais filtram os subtextos extra-literários, como o tema, seu tratamento moral-formativo ou sua inserção em contextos históricos precisos; e
— uma leitura literária, correspondendo a uma "capacidade de perceber
[...] o modo de construção de um livro". Maria Alice Faria considera então que,
a partir do interesse das próprias crianças, mas igualmente conhecendo os
diferentes níveis de leitura que um texto pode ou não permitir, o professor
estará melhor instrumentalizado para uma prática diversificada e aberta à
variedade de gêneros, linguagens e estilos das obras que circulam como ficção
para crianças e jovens.
O principal foco
em Como usar a literatura infantil na sala de aula recai
sobre a matriz narrativa em linguagem literária e a articulação do texto verbal
com a ilustração. Ao esboçar o esquema básico das narrativas para crianças,
o livro de Maria Alice Faria, no entanto, deixa a desejar quanto a tripartição
do texto: a crença que uma história se constrói com começo, meio e fim
não é totalmente desfeita frente à síntese apresentada quanto às fases do
percurso narrativo (a saber: situação inicial, desenvolvimento e desenlace).
Adam, Bronckardt, Isenberg e Laravaille já nos mostraram como a estrutura
lógico-temporal da narrativa pode ser compreendida melhor — e melhor trabalhada
em sala de aula também — quando as ações são pensadas através de cinco
microsseqüências: situação inicial (orientação, apresentação geral),
quebra da ordem (perturbação, problema ou conflito que se instala),
avaliação ou transformação (quando há o esforço para vencer obstáculos),
resolução e situação final (desenlace, estabelecimento de nova ordem ou retorno à
situação inicial). Ademais, sempre é necessário estarmos atentos à generalidade
desse tipo de proposta a fim de descrever e analisar a sintaxe narrativa —
o modelo quinário afina-se bem com exemplos da literatura mais tradicional,
fábulas e contos, não se aplicando integralmente à boa parte das histórias
contemporâneas que primam por romper padrões preestabelecidos.
Contudo, são as análises de Maria Alice Faria que celebram a ávida e perspicaz leitora de literatura para crianças. Extremamente didáticas, suas leituras investigam filigranas da articulação entre a linguagem verbal e visual do livro — e, principalmente, os "brancos" que o texto literário propõem — "brancos" devem ser entendidos como os espaços lacunares de um texto a serem preenchidos pelo leitor, os implícitos a serem recuperados por estratégias sutis de inferência, como a dedução, etc. Inicialmente, a autora investiga a narrativa no livro de imagem e as leituras que, dele, podem se despreender, a partir de quatro exemplos:
A Bruxinha atrapalhada, de Eva Furnari (Global, 1982)
O gato Viriato, de Roger Mello (Ediouro, 1993),
Outra vez, de Angela Lago (Miguelin, 1984) [esta leitura mereceria comentários a parte], e
História de amor, de Regina Coeli Rennó (Lê, 1992).
Ao priorizar o
encontro palavra-imagem, necessitamos ter em mente que a leitura dos segmentos verbais segue uma lógica textual da progressão, do tempo feito palavra; por sua vez, a leitura da imagem é regida pela simultaneidade, pede um olhar de circunavegação, especialmente espacial. Por essas características específicas, teríamos logo três distintas relações entre a palavra e a imagem: o descompasso, a complementariedade e a reiteração — e muitos casos para estudar, como diria Calvino, entre os pólos que partem ora, do texto para imagem, ora, da imagem para o texto... Quando a ilustração é maior que o texto escrito, são convocados livros em que a imagem completa, amplia e revela o que o verbal esconde, não diz; o trabalho dos ilustradores torna-se essencial, ou mesmo vital, para a literariedade de algumas obras:
Luciana em casa de vovó, de Fernanda Lopes de Almeida e Agostinho Gisé (Ática, 1985),
O peru de peruca, de Sônia Junqueira e Alcy (Ática, 1988),
Que bicho será que fez a coisa?, de Angelo Machado e Roger Mello (Nova Fronteira, 1996).
Maria Alice Faria abre um capítulo sobre os textos de extensão média, mostrando como "a ilustração tende a se afastar de suas funções anteriores de complementariedade, colaborando com o escrito de formas variadas". E é, neste ponto, que podemos ler, senão a melhor leitura, uma exímia abordagem do livro de Lúcia Villares, ilustrado por Helena Alexandrino:
Cotovia (Paulus, 1987): os três níveis de leitura (Poslaniec e Houydel) são mesclados e bailam livremente, fazendo passagens entre a forma da linha, o peso da cor, o dizer do tempo, a narrativa dos versos, o leitor-ouvinte identificado na imagem da ouvinte-personagem do livro. "Pode uma forma plástica nos transmitir o silêncio?", indaga-nos a autora, ao analisar o estilo da ilustradora Helena Alexandrino. Outro exemplo significativo, é o trabalho de Ricardo Azevedo, em
Aviãozinho de papel (Companhia das Letrinhas, 1994).
O último conjunto de obras analisadas evidencia como a ilustração fixa os momentos-chave de uma narrativa de extensão mais longa. O desenho, assumindo funções decorativas, também pode proporcionar uma leitura mais agradável e atraente, através de simples e pequenos motivos, em vinhetas, capitulares, cercaduras, etc. Ao analisar
O bordado encantado, de Edmir Perroti, com ilustrações de Helena Alexandrino (Paulinas, 1996), a autora destaca alguns recursos lingüísticos do discurso narrativo, como as molduras e encaixes criados pela coesão verbal, o jogo entre o fundo da situação inicial, no pretérito imperfeito, e a ação figurada no pretérito perfeito do indicativo. O ritmo do texto é decupado metricamente, clarificando como podemos sentí-lo como prosa poética destinada ao "ouvido-leitor". Ao exemplo de extrema leveza, o contraste fica por conta do texto de Maria Amélia Ortigão e as ilustrações de Ricardo Leite, no conto de traçado moral
A menina dos cabelos (Salamandra, 1993).
Ainda neste livro, merece destaque o capítulo assinado por Juvenal Zanchetta Jr. que, em 1995, defendeu o mestrado em Educação, com a dissertação
Literatura juvenil na escola de primeiro
grau: livros e leituras, sob orientação da própria Maria Alice Faria,
na Unesp de Marília. No capítulo em questão, "Uma situação de leitura de
narrativa por imagens na sala de aula", Zanchetta retrata e reflete sobre
as condições de produção de leitura literária na escola, em uma experiência que
envolve alunos de quinta série do Ensino Fundamental — tomando como apoio os
parâmetros esboçados por Denise Escarpit, sobre as diferenças e a passagem de
uma leitura enumerativa a uma leitura de construção de sentidos. Vemos, assim,
como a leitura de um livro de imagem requer um olhar treinado, capaz de perceber
e ater-se aos mínimos detalhes do código visual, mas também apto a saltar por
entre quadros e páginas para fixar, na mente receptora, o arco da narrativa
que se desdobra — um movimento circular que capture os incidentes passo-a-passo,
sem perder a conexão com o todo e o encadeamento da história. Zanchetta mostra
o processo, da leitura mais fragmentária, de como é difícil a retomada dos
indicadores espácio-temporais, responsáveis pela progressão narrativa —
à leitura mais desenvolta, do estágio de paráfrase das imagens vistas à
hierarquização entre os acontecimentos, em graus variados de associação
e inferência realizadas pelos leitores no intuito de "completar" a narrativa —
enfim, uma leitura que não se prende apenas às ilustrações, mas compreende as
situações ilustradas.
Em seu último
capítulo, Como usar a literatura infantil na sala de aula traz subsídios (conceitos e procedimentos) para atividades com livros no cotidiano escolar, em linhas gerais e alguns aspectos bastante pontuais, quanto à estrutura narrativa e o conhecimento do código visual, em especial aquele comum às histórias em quadrinhos. Se, em 1981, Regina Zilberman
(A literatura infantil na escola) ocupava-se de uma tênue demarcação do gênero 'literatura infantil' — entre as esferas do livro didático, do conto de fadas e da história em quadrinhos —, Maria Alice Faria faz um salto sobre as possibilidades de hibridação rumo ao outro lado da fronteira literária. Através das tiras diariamente publicadas em jornal, a autora expõem caminhos para o
estudo do código gráfico (ícones e desenhos abstratos, signos de hipersignificação e onomatopéias). Todavia, a tempo, adverte: "nos livros para crianças, os ilustradores são artistas independentes, que têm seu estilo próprio. Por isso, as histórias destes criadores são mais ricas, mais complexas em seus traços, nos 'brancos' entre os quadros, exigindo do leitor esforço maior de compreensão". Não faltam, às últimas páginas, sugestões didáticas para a ampliação do texto literário em outras formas de expressão — algumas práticas até bem cimentadas pela tradição pedagógica — o que sempre suscitará debates quanto à aplicação da literatura em sala de aula, as leituras na ponta do giz...
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