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o correspondente fiel e a pesquisadora incansável
Regina Zilberman
* apresentação do livro
Monteiro Lobato é parada obrigatória de todos os estudiosos da literatura brasileira. Quem se detiver sobre sua obra, não deixará de reconhecer o exímio contista de Urupês e Negrinha, que, em textos anteriores a 1922, antecipou conquistas alcançadas somente com a consolidação do Modernismo, no final dos anos 20 e nos anos 30 do século XX. Quem se detiver sobre a criação de mundos imaginários, como é a tarefa dos ficcionistas, destacará sua capacidade de produzir um universo auto-suficiente, o Sítio do Picapau Amarelo, povoá-lo de seres fantásticos e mantê-lo vivo e atraente por muitas décadas.
Outras facetas do escritor podem ser salientadas, como o seu entusiasmo pela literatura infantil, vertente que, graças a ele, assumiu, em nosso país, invejáveis prestígio e qualidade, bastante superiores ao que o gênero atingiu em outros países latinos, na Europa ou na América. Vale igualmente sublinhar sua dedicação à literatura enquanto trabalho remunerado, já que buscou profissionalizar-se enquanto escritor, dependendo financeiramente do que a atividade artística podia lhe proporcionar.
Profissional sempre, Lobato não se limitou à produção de textos. Compreendeu a precária situação do livro no Brasil, mas não optou pelo lamento ou a amargura. Pelo contrário, trocou o status de fazendeiro pelo de empresário, investindo o dinheiro da venda de suas terras na impressão e divulgação de obras publicadas. Seus primeiros anos, na posição de editor, foram bastante felizes, permitindo-lhe modernizar a indústria gráfica e livreira nacional. As dificuldades venceram-no, porém; e, ao final dos anos 20, voltou-se a outros horizontes, fazendo da escrita seu modus vivendi. Mas o período de aproximadamente dez anos, durante os quais se pôs ao serviço do mundo editorial, bastou para conferir-lhe o estatuto de pioneiro, garantindo a difusão de muitos e importantes escritores novos à época, razão pela qual nossa literatura deve-lhe eterna gratidão.
A principal dívida da cultura e da literatura brasileira para com Monteiro Lobato não reside somente aí, contudo. Competiu-lhe ainda árdua missão, abraçada com ardor e persistência - a formação de leitores. Não são poucos os brasileiros que reconhecem dever a Lobato o conhecimento da literatura, gosto de ler e valorização de nossos autores, por terem sido habitues do Sítio do Picapau Amarelo, cuja saga, iniciada em 1921, com A menina do Narizinho Arrebitado, estendeu-se até a morte do ficcionista, em 1948, após a conclusão de Os doze trabalhos de Hércules e a organização da obra completa dirigida à infância.
Lobato, contudo, não dependeu apenas de os leitores, de preferência crianças, escolherem e consumirem seus textos. Ele lutou por esse público, buscando sempre sua adesão afetiva. Para chegar a esse resultado, agiu de modo pragmático e objetivo: foi atrás dos consumidores, visitando escolas, proferindo palestras para crianças, não se negando a dar entrevistas.
E, principalmente, respondendo cartas.
O Lobato missivista veio à público por obra e graça do próprio escritor, que, em A barca de Gleyre, publicou as cartas dirigidas a Godofredo Rangel, por mais de trinta anos. Sua correspondência é matéria de volume específico da edição de suas obras completas, tarefa de organização que assumiu na década de 40, quando passou a impressão de seus textos para a Editora Brasiliense, na ocasião recém fundada. Depois, foram aparecendo as cartas que redigiu para outros destinatários, alguns tão ou mais famosos que ele, mostrando que, assim como Mário de Andrade, o exercício da correspondência representava um meio tanto de difusão de idéias, quanto de consolidação de um papel doutrinário no seio da intelectualidade nacional.
O que se sabia até agora é que Lobato escrevia para adultos, seus confrades na luta literária, como fazia o antes citado Mário de Andrade e tantos outros participantes do processo de modernização da cultura brasileira, tarefa a que se atribui a geração a que todos esses pertenciam. Não se conhecia, porém, o Lobato remetente de cartas para crianças, o que ele fez com a mesma seriedade e competência com que conduzia sua profissão de escritor e de difusor cultural.
Eis o teor do estudo de Eliane Santana Dias Debus, que traz à luz a faceta do Lobato que se correspondia com seus pequenos leitores, procurando incentivá-los ao conhecimento da literatura e ao consumo constante e freqüente de livros, os seus de preferência. Mas, como se não bastasse a pesquisa desse lado pouco conhecido do criador do Sítio do Picapau Amarelo, Eliane Santana Dias Debus rastreia, com cuidado e firmeza, as idéias de Lobato sobre leitura, bem como as ações desempenhadas por ele na direção da valorização do gosto pela literatura.
Esse tema ocupa a primeira parte da investigação de Eliane Santana Dias Debus, que examina todos os textos publicados de Monteiro Lobato para estabelecer as concepções do escritor relativamente à leitura e aos livros. Recupera o rol de suas obras preferidas, descreve suas principais ações no meio editorial, acompanha o percurso da fortuna crítica motivada pelas criações de Lobato, incluindo aí a reação de censores que atacavam suas idéias e princípios. Só depois de fixar o leitor Lobato, as leituras que provocou, a recepção virtual que suscita, aborda a reação de seus admiradores, expressa em cartas reunidas ao longo do tempo.
A pesquisadora percorre, pois, um caminho que se estende de um leitor real, o próprio Monteiro Lobato, até um grande número de outros leitores, igualmente reais, passando pelas reações possíveis determinadas pela obra e pelas concretizações fixadas na fortuna crítica, conforme um percurso que passa pela Estética da Recepção para desembocar em histórias de vida. A pesquisadora, talvez imbuída da perseverança do escritor que estuda, vai atrás dos destinatários como eles eram no passado e como se mostram na atualidade. Por essa razão, o trabalho se estende do exame das cartas trocadas entre os pequenos leitores e o Monteiro Lobato vivo, até a abordagem, fixada no material que se anexa ao final do estudo, desses mesmos leitores hoje, alguns bem idosos, mas ainda saudosos de seu correspondente fiel, falecido há mais de cinqüenta anos.
Talvez se possa dizer que Lobato sempre será capaz de apresentar uma faceta original ao indivíduo curioso e amante de sua obra. A imagem que Eliane Santana Dias Debus constrói corrobora essa expectativa; e colabora para que os admiradores do criador de Emília, figura que continua a angariar fãs e seguidores, gratifiquem-se uma vez mais, ao se depararem com seu herói em campanha por leitores, façanha que nunca deixou de realizar com prazer e eficácia.
REGINA ZILBERMAN, junho de 2003.
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