segredos e encantos
da narração na Voz
que cria imagens
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Peter O'Sagae
Mestre e Doutorando em Letras
pela Universidade de São Paulo
Contar
histórias é um ato que tem sua poesia, técnicas próprias, um jeito seu de ser e:
fazer o tempo parar, envolver o espaço, abrir afetos, retraçar os contornos do
mundo. Do mundo interior, mágico e imaginário, que todos nós possuímos. No entanto,
o Fascínio por vezes nos escapa, cai em esquecimento... Atenta para as necessidades
de cultivar o lúdico e as formas de encantamento, Cléo Busatto recupera fios e
caminhos de sua experiência e entrega-se, generosamente, na escrita de Contar
e encantar: pequenos segredos da narrativa (Vozes, 2003). Pequenos e valiosos.
O livro é aberto
com um manifesto do contador de histórias, uma verdadeira carta de intenções onde
se antecipam os sentidos da paixão com que a autora enlaçou seu ofício. Logo no
capítulo introdutório, Cléo Busatto fisga o leitor-professor (a quem o livro é
primeiramente dedicado) em um ponto delicado de sua prática -- nas confusões e
diferenças por esclarecer entre o ato de ler em voz em alta e a técnica de contar
histórias. Sim, são duas operações distintas e o que a arte-educadora mais quer é
refrescar nossa memória, trazendo para a cena o contador arquetípico dos tempos
antigos, o reencontro com a literatura oral e a arte de ouvir.
Com um texto ágil,
que até mesmo parece que estamos a ouvir sua voz, a contadora de histórias e
pesquisadora deslinda paisagens do saber popular, com leves apontamentos teóricos
sobre os efeitos e as funções do encantamento. De um lado, a força capaz de
estabelecer a coesão do grupo social; de outro, a fruição imaginativa e
particular de cada pessoa que receberá a mesma história compartilhada na
coletividade como se fosse única, apenas sua. Cléo Busatto investe uma viagem no
tempo, recolhendo rápidas referências que vão de uma lasca de cerâmica grega,
onde ainda podemos ver a face do temível Minotauro, até as imagens que se
adivinham através das palavras, nos livros que a história da literatura tem
guardado até nossos dias. Assim, vai mostrando com a Matriz Narrativa se
multiplica nas diversas categorias de textos ou gêneros orais, como mitos,
fábulas, lendas, histórias fantásticas, contos de fada, contos admonitórios --
cada um, cada um, com características próprias, mas guardando profundas raízes de
parentesco.
São essas
qualidades de homogeneidade e pluralidade que permitem às histórias da tradição
oral conservarem o frescor, num ritmo de re-invenção constante. Morada simbólica
dos sonhos humanos, nelas persistem um fundo comum que a todos convocam, trazendo
essas narrativas, em igual proporção, a mirada particular das variadas culturas
onde foram perpetuadas. Quando conseguimos provar de seus sabores, saberes e
valores estéticos, éticos e práticos, compreendemos como a literatura oral traz,
em sua essência, uma pedagogia para a sensibilidade, para a compreensão e
respeito mútuo, para o silêncio de reflexão sobre as situações do cotidiano. Uma pedagogia que,
se não é restritamente intencional em sua origem, será amplamente bem vinda no
contexto escolar.
Deste modo, a
aprendizagem é compartilhada entre quem conta e quem ouve. Os segredos da
narrativa integram a produção e a recepção, os conteúdos atitudinais e
procedimentais. Afinal, ouvir é um fazer e fazer-se através da escuta da voz do
outro, como quem conta se faz no mesmo processo de interação.
E para a interação
fluir na flutuação da voz que alinhava o contato e o contexto, o contador de
histórias deve conhecer e exercitar suas habilidades e a consciência sobre seus
atos, sua arte de criar imagens no ar. Eis a chave de ouro. Como consegui-la e
manipula-la? Exatamente, desta interrogação adiante, Cléo Busatto mostra a que
veio, cumprindo as promessas registradas no percurso do livro, abrindo-se mais
que generosa a todos. Exatamente assim, os pequenos segredos da narrativa
tornam-se interessantes não apenas ao leitor-professor, mas a qualquer pessoa
que deseja engajar-se no assunto ou tenha já iniciado um caminho solitário. Porque
Cléo é solidária e didática, ao evidenciar os cuidados com a escolha do texto
(o contador de histórias deve ser, acima de tudo, um bom leitor), com
a história que se transformará em voz e gestos, em um galope sedutor como nos
ensina um Calvino muito bem citado pela autora. Existem imagens verbais, imagens
sonoras, imagens corporais... E nenhuma pode escapar à atenção.
Antes de oferecer
as facilidades de um simples manual, Cléo Busatto é exigente com os futuros
contadores de histórias sob sua tutela. Afinal, "narrar demanda trabalho
investigativo, estudo e treino" -- em outras palavras, demanda um carinho imenso
para que se consiga criar, por exemplo, a partir do texto e suas imagens, uma
sedutora e sonora partitura para embalar o ouvinte... que também tem seus deveres! No
entanto, enquanto ele os desconheça, caberá ao contador de histórias ensiná-lo.
"Permitir qualquer comentário durante a narrativa significa romper com esta
magia, com este fio invisível que lançamos ao dizer: 'Era um vez...' Será muito
difícil retomar a história e unir o cordão partido por um comentário fora de hora.
Desconsidere a pergunta ou a observação com um olhar amoroso que significa:
'Depois a gente conversa!'"
Outros dois
aspectos da riqueza de Contar e encantar, que ainda devemos destacar, são
as possibilidades de trabalho que a autora oferece com a matéria da memória
pessoal e, oportunamente, os limites que descreve entre o ato de contar e o ato
de representar. Desvinculando a obrigação de ator profissional do papel do
contador de histórias, além de diagnosticar problemas e preconceitos correntes,
Cléo Busatto espeta e separa com argúcia a série de excessos e estereótipos
teatrais, repetidos por contadores inexperientes quando interpolam caras-e-bocas-mais-cambalhotas
em uma performance. Vale a pena lembrar que o encanto e a beleza se engrandecem
na simplicidade.
Breves exercícios
de concentração, orientações para conduta corporal e outros segredos encontram-se
dispersos por entre os capítulos, convidando o leitor à ação. O livro se fecha
com uma pequena antologia de oito narrativas orais muito agradáveis que nos
permitem lembrar e estabelecer relações com outras histórias, viajar por outros
textos-contextos... Na urgência de suscitar imagens e afetos, todo contador tem
aqui um trabalho inspirado.